Tu és o Cristo

Cristo e a Cruz

Estamos celebrando o XII Domingo do Tempo Comum. A Palavra de Deus coloca-nos diante da questão fundamental de nossa fé: quem é Jesus de Nazaré? Sejamos espertos; estejamos atentos a um detalhe importantíssimo: Jesus distingue a pergunta sobre a opinião do mundo daquela outra, sobre a fé dos discípulos. Quem diz o povo que eu sou?”(cf. Lc, 9,18) E as opiniões são humanas e, portanto, incompletas, parciais, superficiais: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”(cf. Lc 9,19). Ainda hoje é assim: o mundo não poderá jamais compreender Jesus em sua profundidade e verdade última.

A primeira leitura – Zc 12,10-11; 13,1 – apresenta aprofecia de Zacarias, que parece estranha nesta celebração, mas a aparente estranheza serve de alerta para que busquemos o essencial nesse trecho. O texto começa situando a ação de Deus, que chega como promessa a um destinatário: “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração, e eles olharão para mim” (Zc 12,10). Esse trecho está construído de modo que a “a casa de Davi e os habitantes de Jerusalém” apareçam no início e no fim, em clara inclusão. Para o profeta, a promessa da ação de Deus – entenda-se, o envio do Messias 

A segunda leitura –  Gl 3,26-29 –  da carta aos Gálatas, fala sobre a condição daqueles que renunciaram a si mesmos e abraçaram a cruz de Cristo. A afirmação paulina é clara: em Cristo, todos os batizados se tornam filhos e filhas de Deus. Por isso, as categorias com as quais as pessoas eram classificadas e, assim, separadas perdem todo o sentido.

No Evangelho – Lc 9,18-24 – Jesus, pergunta aos discípulos, pergunta a nós: E vós, quem dizeis que eu sou?”(Lc 9,18) A resposta de Pedro é perfeita, é completa“O Cristo de Deus”. Esta resposta não veio da lógica humana, da inteligência ou da esperteza de Pedro.

Jesus, pergunta aos discípulos, pergunta a nós: E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta de Pedro é perfeita, é completa: “Tu és o Cristo, o Ungido, o Messias de Deus”. Esta resposta não veio da lógica humana, da inteligência ou da esperteza de Pedro. A afirmação do Senhor é clara, direta e gravíssima: carne e sangue, isto é, a só inteligência humana, não pode alcançar quem é Jesus! Somente na revelação do Pai, isto é, somente na experiência da fé da Igreja, nós podemos ter acesso ao mistério de Cristo, à sua realidade profunda.

Não nos deve surpreender se o mundo tem dificuldade de crer realmente, de aceitar seriamente o Cristo e as exigências do seu Evangelho! Não devemos nos importar muito com o que as revistas e as ciências (história, sociologia, antropologia…) dizem a respeito de Jesus. Elas não conseguem penetrar no núcleo do seu mistério; ficam sempre no limiar, na soleira. É na escuta fiel e devota da Palavra, na oração pessoal, na vida da comunidade eclesial, no empenho sincero e sacrificado de viver o Evangelho com suas exigências e, sobretudo, na celebração dos santos mistérios que podemos fazer uma experiência autêntica de quem é Jesus. Não cremos simplesmente no Jesus que a ciência ou a história podem apreender; cremos no Cristo crido, adorado, experimentado e anunciado pela Igreja, a partir do testemunho dos apóstolos!

O núcleo do mistério de Cristo é o mistério de sua cruz. Observe-se bem: assim que Pedro afirma que Jesus é o Messias, ele precisa, esclarece que tipo de Messias ele é: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado… deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”(Lc 9,22). Somente na cruz o discípulo pode reconhecer em profundidade o seu Senhor. Mas, a cruz não é um teoria; é uma realidade em nossa vida e na vida do mundo: a cruz da solidão, do fracasso, da doença, das lágrimas, da pobreza, da morte… Somente quando abraçamos na nossa cruz a cruz de Cristo, podemos, então, compreendê-lo: “Se alguém me quer seguir, quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!” Fora da cruz, fora do seguimento de Cristo até o fim, não há verdadeiro conhecimento do Senhor, não há a mínima possibilidade de uma verdadeira comunhão com ele. São Paulo nos emociona, quando afirmou: “O que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”.

A cada dia em nossa vida devemos sempre ter a sensibilidade e o coração aberto para professar a nossa fé em Jesus Cristo. Ele que se encontra na Eucaristia e também naqueles que sofrem. Que nossa atitude seja de cada dia ama-lo e reconhece-lo.

         Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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