Mãe de Deus

Maria Mãe de Deus

Certamente, o pensamento mais presente neste primeiro dia de 2022 é o do início de mais um ano, que é sempre, para nós, cristãos, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo; mais um ano entre a primeira e a segunda vinda do Senhor Nosso Salvador. Precisamente, por este motivo, a primeira leitura da Missa (Nm 6,22-27) invocou a bênção e a paz sobre nós: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua Face e Se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o Seu Rosto e te dê a paz!” Três vezes foi pronunciado o nome do Senhor!

Começamos bem o ano, este Novo Ano! Mas nunca esqueçamos quem é este Senhor: é o Menino que nos nasceu, o Filho que nos foi dado e que, precisamente, hoje, oito dias após o Seu admirável nascimento, recebeu o nome de Jesus, que significa Deus salva! Eis: em Jesus, Deus nos salva com a verdadeira paz, paz que brota da verdadeira comunhão com o Senhor! Que Ele inunde, com Sua doce paz, os dias deste Novo Ano! Mas hoje é, também, a Oitava do Santo Natal, dia no qual a Igreja volta-se para a Virgem que gerou em seu seio e deu à luz o verdadeiro Deus, feito homem.

Chegou a plenitude dos tempos e “Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4), aquela mesma que os pastores encontraram velando o “recém-nascido, deitado na manjedoura”. Somos gratos à Virgem Santa e, contemplando o seu filhinho, reconhecemos Nele o Deus perfeito e a proclamamos verdadeiramente Mãe de Deus: “Salve, ó Santa Mãe de Deus! Vós destes à luz o Rei que governa o Céu e a terra pelos séculos eternos!” Assim canta a Igreja hoje, saudando a Toda Santa Virgem Maria. Como exclamava São Gregório Nazianzeno, grande Bispo e doutor da Igreja, no século IV: “Nós proclamamos, em sentido absoluto, que a Santa Virgem é, própria e verdadeiramente, Mãe de Deus”.

Nossos irmãos orientais, de rito bizantino, no Natal, cantam assim: “Ó Cristo, que podemos oferecer-vos como dom por vos terdes manifestado sobre a terra na nossa humanidade? Com efeito, cada uma das Vossas criaturas exprime a sua ação de graças, e a Vós traz: os Anjos, o seu cântico; o Céu, uma estrela; os Magos, os seus dons; os Pastores, a admiração; a terra, uma gruta; o deserto, uma manjedoura; e nós, uma Virgem Mãe!” Comprometamo-nos, então, a viver os dias do novo ano com as mesmas atitudes de Nossa Senhora! Primeiro, uma atitude de fé: ela escutou a Palavra, ela creu de todo o coração.

Foi mulher totalmente aberta ao seu Senhor. Que neste tempo novo que se inicia, saibamos, também nós, viver de fé; mesmo quando tudo parecer escuro, mesmo nos dias difíceis, mesmo nos momentos de pranto e nossa inteligência não conseguir compreender, nem nossa vista conseguir enxergar os passos do Senhor. Em segundo lugar, uma atitude de disponibilidade à missão. Nossa Senhora não se furtou ao convite do Senhor, não se acomodou numa vida centrada nos seus próprios interesses: fez-se serva, fez-se disponível, fez-se ministra do plano salvífico do Senhor em nosso favor.

Do mesmo modo, saibamos nós discernir o que o Senhor nos vai pedir e, sem medo, sem mesquinho fechamento, digamos-Lhe “sim”, mesmo quando tal resposta for difícil e sofrida! (Evangelho de Lucas 2, 16-21) Mas tudo isso será impossível sem uma terceira atitude que devemos aprender da Mãe de Deus: aquela de escuta silenciosa e contemplativa. O Evangelho nos dá conta de que Maria “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração!” (Lc 2,19) Eis! A Virgem rezava, a Virgem pensava nos acontecimentos à luz de Deus, na presença silenciosa do Senhor, procurando entender o sentido profundo do que acontecia ao seu redor. Somente quem faz assim pode ver sempre Deus em todas as coisas e em todas as circunstâncias.

Há dois mil anos “os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2,16). Hoje, somos nós que vamos ao encontro de Jesus, e deveríamos ir às pressas adorar o Deus Menino na Missa desta Solenidade e em todos os domingos e dias de preceito do ano de 2022. Caríssimos, certamente, haveremos de sorrir e chorar nestes dias do novo ano. Que lágrimas e sorrisos, vitórias e derrotas, abraços e separações sejam vividos na luz do Senhor, do Menino que brilhou como Luz nas nossas trevas e que, n’Ele, encontremos sempre a Paz. Para tanto, em cada dia deste novo pedaço de tempo a que chamamos ano, valha-nos as preces da Toda Santa Mãe de Deus! Amém.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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