Jubileu Áureo Sacerdotal do Papa Francisco

438
Jubileu Áureo Sacerdotal do Papa Francisco

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro une-se à Igreja Católica em todo mundo para render graças a Deus pelo jubileu de ouro, os 50 anos de ordenação presbiteral do Santo Padre, o Papa Francisco, comemorada em 13 de dezembro.

Rendemos graças a Deus pela vocação sacerdotal e pelo carisma jesuíta do Papa Francisco e pelo bem que ele distribuiu em toda a sua via ministerial quer como formador, como professor, como provincial, como bispo auxiliar e como Arcebispo Metropolitano de Buenos Aires até, pela graça do Divino Espírito Santo, ter sido eleito como Romano Pontífice.

Ingressou no noviciado da Companhia de Jesus em março de 1958. Fez o juniorato em Santiago do Chile. Graduou-se em Filosofia em 1960, na Universidade Católica de Buenos Aires. Entre os anos 1964 e 1966, ensinou Literatura e Psicologia, no Colégio Imaculada, na Província de Santa Fé, e no Colégio do Salvador, em Buenos Aires. Graduou-se em Teologia em 1969. Recebeu a ordenação presbiteral no dia 13 de dezembro de 1969, pelas mãos de Dom Ramón José Castellano. Emitiu seus últimos votos na Companhia de Jesus em 1973. Em 1973 foi nomeado Mestre de Noviços, no Seminário da Villa Barilari, em San Miguel. No mesmo ano foi eleito superior provincial dos jesuítas, na Argentina. Em 1980, após o período do provincialato, retornou a San Miguel, para ensinar em uma escola dos jesuítas. No período de 1980 a 1986 foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, foi confessor e diretor espiritual em Córdoba.

Em 20 de maio de 1992, o Papa João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires, com a Sé titular de Auca (Aucensi). Sua ordenação episcopal deu-se a 27 de junho de 1992, pelas mãos do cardeal Quarracino, de Dom Emilio Ogñénovich e de Dom Ubaldo Calabresi. Em 3 de junho de 1997, foi nomeado arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Tornou-se arcebispo metropolitano de Buenos Aires no dia 28 de fevereiro de 1998.  Foi nomeado ordinário para os fiéis de rito oriental sem ordinário próprio, na Argentina, pelo Papa João Paulo II, em 30 de novembro de 1998.

Foi criado cardeal no Consistório Ordinário Público de 2001, ocorrido em 21 de fevereiro de 2001, presidido pelo Papa João Paulo II, recebendo o título de cardeal-presbítero de São Roberto Belarmino. Quando foi nomeado, convenceu centenas de argentinos a não viajarem para Roma. Em vez de irem ao Vaticano celebrar a nomeação, pediu que dessem o dinheiro da viagem aos pobres.

A vida ministerial do Papa Francisco está sendo marcada pela misericórdia conforme o seu lema episcopal e agora também como Papa: Miserando atque elegendo (Olhou-o com misericórdia e o escolheu).

O Papa Francisco pede uma Igreja em saída. A Igreja em saída é a superação da Igreja autorreferenciada. Eis o ponto de partida, a pedra fundamental do pensamento de Francisco. A Igreja em saída já estava latente como eclesiologia capaz de superar a crise da Igreja, cuja raiz era o seu autocentramento, nas reflexões feitas pelo cardeal Bergoglio durante as congregações que prepararam o conclave. E desde a exortação Evangelii Gaudium se mostra como a ideia mestra ou a fonte que lança a Igreja para fora de si mesma, na direção de suas origens primeiras e na direção do mundo e dos outros, particularmente dos mais fragilizados.

O coração do evangelho: Toda empreitada de renovação de uma tradição e de uma instituição precisa ser feita a partir de uma referência legítima, ou seja, a partir de um fundamento que garanta a sua verdade e assegure um consenso mínimo em torno de sua proposta. A renovação não pode basear-se unicamente nas palavras do líder renovador, mas nas Palavras sobre as quais se assenta a instituição e com base nas quais a tradição existe e se põe a transmiti-las às gerações. Na fenomenologia da religião fala-se em volta ao tempo das origens, na sociologia fala-se em volta ao carisma, e no cristianismo se costuma falar em “volta às fontes”. No caso deste, as fontes já estão codificadas num cânon que as comunica e testemunha. Voltar às fontes é voltar ao carisma que fundou e funda a Igreja. Numa palavra, voltar a Jesus Cristo e a tudo o que ele ensinou e comunica como salvação para a Igreja atual. Os grandes reformadores fizeram de alguma forma esse movimento e, precisamente por essa razão, obtiveram êxitos em suas propostas.

Na encíclica Laudato Si’, dá o primeiro passo do momento do julgar (segundo o método ver-julgar-agir) precisamente no evangelho da criação. Na sequência, aprofunda o julgamento da crise planetária, a partir das ciências humanas (capítulo III) e da própria ecologia (capítulo IV). As fontes bíblicas são o ponto de partida que oferece um primeiro horizonte para as demais análises. Na tradição que articula fé e razão, adota um caminho indutivo e não dedutivo. Não parte dos conteúdos oferecidos pela tradição e pelos “predecessores”, conforme costume dos discursos papais, mas dos conteúdos oferecidos pelas fontes bíblicas. Francisco sabe que quer falar para um público que está fora da Igreja, mas insiste em buscar nas fontes escriturísticas elementos que permitam ver a terra como dom de Deus (LS 62). A sua teologia ecológica é, antes de tudo, bíblica. Os compromissos ecológicos dos cristãos brotam das convicções de fé (LS 64). O primeiro sentido de todas as coisas da fé reside nessa fonte primeira, de onde tudo pode renovar-se. O evento Cristo renova todas as coisas com sua morte e ressurreição e permite ao cristão rever suas posturas e converter-se ecologicamente. De fato, a espiritualidade ecológica nasce “das convicções de nossa fé, pois aquilo que o evangelho nos ensina tem consequências em nosso modo de pensar, sentir e viver” (LS 216).

Na exortação Amoris Laetitia, a postura é exatamente a mesma. Contudo, a problemática se mostra ainda mais complexa e mais grave, tendo em vista o objeto em questão: a participação dos casais recasados. A doutrina formulada e estabelecida como regra não vacila no que tange à participação deles na comunhão eucarística. Essa questão constituiu, de fato, o nó a ser desatado pelos Sínodos da Família realizados em 2014 e 2015. Como recolocar essa questão, resolvida do ponto de vista da norma moral na dinâmica da misericórdia? De onde retirar as orientações capazes de avançar, sem negar a doutrina moral? A exortação pós-sinodal recolhe a orientação fundamental dos padres sinodais e avança com cuidado e firmeza na orientação. A raiz vem do evangelho. É dele que vem o valor e a norma fundamental da misericórdia a ser adotada antes de qualquer outra orientação doutrinal, por mais coerente e precisa que esta possa ser. A estrutura geral do documento expressa essa fundamentação. Começa, no primeiro capítulo, “à luz da palavra” para dar “o tom adequado” (AL 6), e após analisar a realidade, no segundo capítulo, julga-a a partir do Novo Testamento: o olhar fixo em Jesus (capítulo III), o amor, tendo como base 1Cor 13 (capítulo IV). De fato, fora da fundamentação bíblica, que outra hermenêutica poderia recolocar os problemas urgentes das famílias atuais legislados por normas rígidas e consolidadas? Em nome do evangelho, Francisco critica a rigidez e sugere que as comunidades façam o discernimento e integrem a fragilidade (capítulo VIII). A crítica é apresentada logo na introdução, quando reconhece que é necessário continuar aprofundando o assunto (AL 2), que há maneiras diferentes de interpretar a doutrina e de aplicá-la, e que há que buscar soluções mais inculturadas, conforme as peculiaridades das regiões (AL 3). A crítica se torna mais aguda quando diz que é preciso haver uma conversão missionária que supere a aplicação do “anúncio teórico desligado dos problemas reais das pessoas” (AL 201) e que “ninguém pode ser condenado, porque esta não é a lógica do evangelho” (AL 297). O número 305 faz uma denúncia profética a certas práticas consolidadas na Igreja: Por isso, um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais aos que vivem em situações “irregulares”, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem atrás dos ensinamentos da Igreja para sentar-se na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas.

O imperativo da misericórdia: A misericórdia exige conversão, mudança não somente das convicções – algo unicamente espiritual – mas mudança em nossos hábitos centrados em práticas de bem-estar cada vez mais acentuadas e que fazem esquecer tudo mais. Esse relativismo prático, mais perigoso que o teórico e que tem como absoluto somente o eu satisfeito, significa “agir como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem, sonhar como se os outros não existissem” (EG 80). A atitude de misericórdia rompe com esses modos de vida; é conversão para o encontro, conversão ecológica, conversão para a solidariedade e para a inclusão do outro. A Igreja precisa “chegar às periferias humanas e ser uma mãe de “coração aberto” e acolher quem “ficou caído à beira do caminho” (EG 46).        

A opção pelos pobres: “A renovação inadiável se faz também na medida em que a Igreja se encarna nas limitações humanas” (EG 40). O outro pode converter-nos com seus apelos; pode ajudar a renovar a Igreja, muitas vezes fechada em si mesma, segura de suas estruturas e definida em suas normas. A misericórdia leva antes de tudo aos pobres. O Deus amor revelado por Jesus Cristo acolhe, perdoa e integra os pobres e sofredores. “Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia” (MV 9).

Os pobres no coração de Deus. A sensibilidade, a atenção e a opção pelos pobres não são simplesmente uma opção social e política; são, antes de tudo, uma questão de fé: “há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (EG 48). O anúncio do evangelho aos pobres é o sinal da profecia de Jesus. Jesus Cristo é o Deus que se fez pobre com os pobres (EG 186). Os pobres ocupam um lugar preferencial no coração de Deus, e por essa razão fazem parte do mistério de nossa redenção (EG 197).

A misericórdia constitui a postura fundamental da vida cristã; ela agrega em seu significado a acolhida, a sensibilidade e a solidariedade para com os mais fracos e sofredores; liga o seguidor ao próprio Mestre misericordioso. Nesse eixo, encontram-se o Cristo vivo e o homem vivo, o Cristo que sofre com os sofredores concretos, o Cristo pobre com os pobres de hoje, e o Cristo que perdoa com os pecadores.

“Sim, devemos, os sacerdotes, todos nós devemos fazer coisas e a primeira tarefa é anunciar o Evangelho, mas protegê-lo, proteger o centro, a fonte, de onde brota esta missão, que é propriamente o dom que recebemos gratuitamente do Senhor”, disse o Papa.

De minha parte, quero agradecer ao Santo Padre ter me incluído no Colégio Cardinalício, sem merecimento algum de minha parte. Agradeço o dom de sua primeira viagem internacional, a sua viagem apostólica na JMJ Rio 2013, com uma riqueza imensa de um legado evangelizador que produz os seus frutos até hoje, e os muitos ensinamentos que nos animam a continuar sendo uma Igreja em saída, misericordiosa.

O seu exemplo de sacerdote totalmente voltado para a santificação do povo de Deus nos ajuda a ser uma Igreja que acolhe, evangelize e santifique. Parabéns pelo seu jubileu e estaremos rezando por Sua Santidade e pelo seu  ministério petrino!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ