Bem-aventurados

santidade

Com a celebração da Solenidade de todos os santos no início de novembro, o nosso coração e o nosso pensamento se voltam para muitos homens e mulheres que souberam viver uma profunda unidade com Deus.  

É um dia em que recordamos não apenas os santos canonizados, muitos deles já têm a sua festa própria ao longo do ano, mas, sobretudo, os santos anônimos e desconhecidos. Abrange todos aqueles que foram justificados pela fé em Cristo. Recordamos aqueles que vivem para sempre diante de Deus.

O Mestre chama todos à santidade sem distinção de idade, profissão, raça ou condição social. Não há seguidores de Cristo sem vocação cristã, sem uma chamada pessoal à santidade. Deus nos escolheu para sermos santos e imaculados na sua presença, dirá São Paulo aos primeiros cristãos de Éfeso; e para conseguirmos esta meta, é necessário que nos empenhemos num esforço que se prolongará por todos os nossos dias aqui na terra: O justo justifique-se mais e o santo mais e mais se santifique.

Esta doutrina do chamado universal à santidade, nos diz o Concílio Ecumênico Vaticano II: “todos os cristãos, seja qual for sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor, cada um no seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai” (Lumen Gentium, 11).

Jesus convida todos os cristãos que estão absolvidos nas suas ocupações profissionais a encontrá-lo precisamente nessas ocupações, realizando-as com perfeição humana e, ao mesmo tempo, com sentido sobrenatural: oferecendo-as a Deus, vivendo nelas a caridade e o espírito de sacrifício, elevando no meio delas o coração a Deus.

A santidade-amor crescente por Deus e pelos outros pode e deve ser adquirida através das coisas todos os dias, que se repetem muitas vezes numa aparente monotonia. “Para amar a Deus e servi-lo, não é necessário fazer coisas estranhas. Cristo pede a todos os homens sem exceção que sejam perfeitos como seu Pai celestial é perfeito (Mt 5, 48). Para a grande maioria dos homens, ser santo significa santificar o seu próprio trabalho, santificar-se no trabalho e santificar os outros com o trabalho, e assim encontrar a Deus no caminho da vida.

Na primeira leitura – Ap 7,2-4. 9-14 – João, o Evangelista, descreve a multidão dos bem-aventurados, marcados com o sinal da salvação: O número de cento e quarenta e quatro mil, membros do Povo Eleito e uma multidão incontável, que veio da grande tribulação (mártires) do Cordeiro. O  Livro do Apocalipse é um livro com muitos simbolismos, mas ele antecipa a vitória do Cordeiro que tem uma multidão de seguidores destinados à glória. Trazem vestes brancas (sinal de divindade) e ficam de pé diante do Cordeiro (Sinal de inocência). O mundo e a vida os fazem sofrer, mas serão gloriosos e luminosos como Jesus ressuscitado.

Na segunda leitura – 1Jo 3,1-3 – há, também, uma grande multidão de filhos de Deus, adotivos! E nós somos esses filhos adotivos de nosso Deus, que trazem em seu íntimo a vida divina a ser revelada no futuro quando nós veremos a Deus como Ele é!

No Evangelho – Mt 5,1-12a – santos são aqueles que viveram na terra as Bem-Aventuranças, propostas por Jesus como forma de vida cristã. É todo batizado que discretamente vive o mandamento de Jesus, praticando as obras de misericórdia, especialmente, com os mais necessitados. Como leitura evangélica, temos o texto das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), visando ressaltar que a sua vivência total é o melhor caminho para se chegar à santidade. A prática das bem-aventuranças é a marca e o selo dos santos descrita por Jesus, para sublinhar a dinâmica da santidade.

Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinônimo de santidade, não está separada de um eventual sofrimento ou pelo menos de dificuldade.

Santos são os aflitos, que são impotentes diante de situações dramáticas, e não pretendem ter solução para tudo.  Há muitos que não entendem a razão dos sofrimentos e se revoltam contra Deus.  Jesus diz que os aflitos são felizes.  De fato, se souberem aceitar com resignação as provas que Deus envia, se souberem sofrer com ânimo as misérias e dificuldades da vida, a recompensa será a consolação de Deus.

Santos são os famintos e sedentos de justiça, que não pactuam com a maldade, nem se deixam levar pela lógica da dominação.  Deus mesmo haverá de realizar seu ideal e fazê-los contemplar o reino da justiça. Trata-se daquela justiça interior que torna o homem agradável a Deus, quando se esforça por cumprir sempre a vontade de Deus. O primeiro passo para conseguir a santidade é desejá-la.  Por isso, Jesus diz que são felizes os que têm fome e sede de justiça, isto é, aqueles que realmente desejam ser santos.  Mas é necessário que este desejo seja eficaz.  Isto é, que empreguemos os meios necessários para consegui-lo.

A santidade é acessível a todos porque Deus quer que todos os homens e mulheres sejam santos, isto é, participem da sua Vida e do seu Amor. O Pai deseja que, através da ação do Espírito Santo em nós, nos pareçamos cada vez mais com o seu Filho Jesus Cristo. Em resumo, a santidade é o desenvolvimento da nossa filiação divina: desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1Jo 3,2).

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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