Início Colunistas Orani João Cardeal Tempesta Meu Deu, Meu Deus, porque me abandonaste

Meu Deu, Meu Deus, porque me abandonaste

domingo de ramos
Material para catequese
Material para catequese

Neste Domingo de Ramos somos convidados a aclamar Jesus com fé, amor e devoção. Não podemos depois condena-lo com nossas atitudes de pecado

Chegamos à celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Percorremos, durante quarenta dias, o tempo quaresmal, para a partir deste domingo iniciarmos a semana maior da nossa fé, que é a Semana Santa. Hoje, Jesus entra em Jerusalém para sofrer a paixão, morte e ressurreição. Durante o tempo comum, acompanhamos Jesus no caminho de subida para Jerusalém e hoje Ele entra na cidade Santa, aclamado pelo povo, esse mesmo povo que hoje o aclama, é o mesmo que dias depois vai pedir a sua condenação.

Na celebração de hoje, somos convidados a aclamar o Senhor com os nossos ramos nas mãos, assim como o povo de Deus fez há cerca de dois mil anos. Mas temos que aclamá-lo com fé, amor e devoção. Não podemos aclamá-lo e depois, com nossas próprias atitudes, condená-lo diante dos irmãos de nossa comunidade, casa ou trabalho. Participemos com alegria e com fé da missa de hoje e continuemos nossa preparação para a Páscoa, que celebraremos em oito dias.

Na missa de hoje, teremos dois grandes momentos. Inicia-se com todo o povo reunido na porta da Igreja ao lado de fora ou em outro local ou igreja e é proclamado o Evangelho que narra a entrada de Jesus em Jerusalém, montado num jumentinho e todo o povo o aclama, como o rei dos judeus. Após a proclamação do Evangelho, acontece a procissão e todo o povo aclamando os ramos adentram dentro da Igreja. Depois da procissão, a missa segue como costume e o Evangelho é a narrativa da paixão, já nos preparando para aquilo que vamos celebrar na Sexta-Feira Santa.

O ato penitencial dessa missa é substituído pela procissão e benção dos ramos. A própria procissão tem o caráter penitencial e entregamos a Jesus os nossos pecados. A sua morte foi para nos resgatar do pecado e nos dar uma vida nova. Nessa semana que se inicia com a Missa de Ramos, ainda podemos realizar a nossa confissão sacramental auricular, para celebrarmos de maneira pura a Páscoa do Senhor. 

Após a procissão com os Ramos, o presidente da celebração profere a oração da coleta, pedindo, sobretudo, que a exemplo de Jesus possamos ressuscitar para uma vida nova. A primeira leitura dessa missa é de Isaías (Is 50, 4-7). Esse trecho da leitura de Isaías retrata o servo sofredor. Podemos comparar a figura do servo sofredor com Jesus. Pois assim como Jesus, o servo sofredor sofre em silêncio tudo o que fazem de mal contra ele. Apenas confiava em Deus. Essa mesma postura foi a que Jesus tomou. De igual modo, somos convidados a confiar em Deus, mesmo diante das dificuldades e acreditar que aquele momento difícil passará e logo chegarão os momentos alegres. Nenhum mal dura para sempre. Temos que passar pelo sofrimento, para podermos chegar às alegrias.

O salmo responsorial diz em seu refrão: “Meu Deu, Meu Deus, porque me abandonaste” (Sl 21/22). O salmista se sente sozinho diante de seus inimigos, todos riem e caçoam dele e acha que até mesmo Deus o abandonou. Ele pede que Deus não o abandone e intervenha diante daquela situação. Deus não nos abandona, podemos nos achar num caminho sem saída e achar que Ele se esqueceu de nós, mas Ele é fiel, não nos abandona em meio às dificuldades e, se caímos, Ele nos ajuda a levantar.

A segunda leitura dessa missa de Ramos é da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fl 2, 6-11). Paulo diz que Cristo se esvaziou totalmente e, mesmo sendo filho de Deus, não se negou entregar-se na cruz e sofrer a paixão. A partir desse ato de Jesus, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. Dessa forma, ao nome de Jesus todo o joelho se dobre, seja no céu ou na terra e possamos proclamar que ao nome de Jesus todo joelho se dobre, seja no céu ou na terra. Ele é o filho e intercede por nós todos junto ao Pai. Peçamos ao filho que o Pai atende.

O segundo evangelho dessa missa é a narrativa da Paixão do Senhor segundo Lucas, (Lc 22, 14-23, 56). Na Sexta-Feira Santa, também ouviremos a narrativa da paixão segundo João. A trajetória de Jesus até a morte de cruz, inicia-se com Ele entrando em Jerusalém e sendo aclamado pelo povo como rei, depois de entrar na cidade Santa. Jesus realiza a última ceia com os seus discípulos e faz o rito do lava-pés. Jesus realiza com os discípulos a última ceia para que a sua presença permanecesse para sempre com Eles. Toda vez que fossem realizar a ceia, lembrariam daquilo que Jesus fez por eles. Não estariam comendo somente pão e vinho, mas o seu corpo e seu sangue. Essa presença de Jesus se daria por meio do Espírito Santo. É o que fazemos até hoje em toda a celebração Eucarística, recordamos desse ato de Jesus e cremos que Ele está presente no meio de nós, através do Espírito Santo.

Após isso, Jesus sente uma angústia muito grande, vai para o jardim das oliveiras e passa a noite em oração, até o momento em que é preso. Os discípulos o abandonam e Ele se sente sozinho, passa por julgamento de Pilatos e não encontrando nenhum crime em Jesus, Pilatos pede ao povo que escolha entre Jesus e Barrabás, quem deveria sofrer a morte de cruz. O povo escolhe que Pilatos solte Barrabás e condene Jesus à morte, esse mesmo povo que o aclamou como rei no Domingo de Ramos.

Após a condenação, Jesus é açoitado, colocam N’Ele uma coroa de espinhos, manto vermelho e dão a cruz para que Ele carregue nas costas. Jesus faz o caminho do calvário até chegar ao local de sua morte. Jesus, ao carregar à cruz as costas, carrega todos os nossos pecados e ao morrer na cruz, morre para nos salvar. Ensina-nos que temos que carregar a nossa cruz do dia a dia e que para se chegar à glória da ressurreição, é preciso passar muitas vezes por sofrimentos. O sofrimento é passageiro, não dura para sempre e a glória da ressurreição se perpetuará na eternidade.

Iniciemos junto com Jesus a sua trajetória rumo ao calvário e posterior ressurreição. Intensifiquemos durante essa semana a nossa oração, participemos dos momentos litúrgicos propostos e celebremos o Tríduo Pascal. Passemos pelo calvário junto com Jesus e que possamos ressuscitar para uma nova vida junto com Ele.

Vamos retornando paulatinamente dos flagelos da pandemia da covid-19, retornando, com todo o cuidado possível para a participação das liturgias da Santa Semana. Uma feliz e abençoada Semana Santa para todos!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ