Descida de Jesus da Cruz

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A crucifixão era a execução mais cruel e afrontosa que a antiguidade conhecia. Um cidadão romano não podia ser crucificado. A morte sobrevinha depois de uma longa agonia (a de Jesus demorou 6 horas). Às vezes, os verdugos aceleravam o fim do crucificado quebrando-lhe as pernas. Desde os tempos apostólicos até os nossos dias, são muitos os que se negam a aceitar um Deus feito homem que morre num madeiro para salvar-nos: o drama da cruz continua a ser escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Desde sempre existiu a tentação de desvirtuar o sentido da cruz.

 “Apagam-se as luminárias do céu, e a terra fica sumida em trevas, por volta do meio dia. São perto das três, quando Jesus exclama: Eli, Eli, lamma sabachatani?! Isto é: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mt 27, 46). Depois de ter sede, depois de ter falado: “tudo está consumado” (Jo 19, 30). Jesus clama em voz forte: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23, 46).

Depois de horas de agonia, Jesus morreu. Os evangelistas narram que, enquanto o Senhor esteve pregado na cruz, o céu escureceu e ocorreram coisas extraordinárias, pois era o Filho de Deus que morria. O véu do templo rasgou de cima a baixo, dando a entender que, com a morte de Cristo, ficava abolido o culto da Antiga Aliança, agora, o culto agradável a Deus passava a ser tribulado através da humanidade de Cristo, que é sacerdote e vítima.

A tarde de sexta-feira avançava e era necessário retirar os corpos. Não podiam ficar ali no sábado; deviam estar enterrados antes de que brilhasse a primeira estrela no firmamento. Como era o dia de preparação da Páscoa judaica, para que os corpos não ficassem na cruz, porque esse sábado era particularmente solene, os judeus rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas e os retirassem. Pilatos encarregou alguns soldados de quebrarem as pernas dos ladrões a fim de que morressem mais rapidamente. Quando chegaram a Jesus e viram que já estava morto, um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.

A Igreja “cresce visivelmente pelo poder de Deus. O seu começo e crescimento estão simbolizados no sangue e na água que brotaram do lado aberto de Cristo crucificado” (Jo 19,33). A morte de Cristo significou a vida de Cristo, significou a vida sobrenatural que recebíamos através da Igreja.

Desceram Cristo da cruz com carinho e veneração, e depositam-no com todo o cuidado nos braços de sua Mãe. Ainda que seu corpo seja uma pura chaga, o seu rosto está sereno e cheio de majestade. Olhemos devagar e com piedade para Jesus, como a Virgem Santíssima o deve ter piedade para Jesus, como a Virgem Santíssima o deve ter olhado. O Senhor não só nos resgatou do pecado e da morte, mas nos ensinou a cumprir a vontade de Deus por cima de todos os planos próprios, a viver desprendidos de tudo, a saber perdoar quando aqueles que nos ofendem e nem sequer se arrependem, a ser apóstolos até o momento da morte, a sofrer sem queixas estéreis.

José de Arimatéia, discípulo de Jesus, homem rico, influente no Sinédrio, que permanecera no anonimato quando o Senhor era aclamado por toda a Palestina, apresenta-se a Pilatos e faz-lhe o maior pedido que jamais se fez; o Corpo de Jesus, o Filho de Deus, o tesouro da Igreja, sua riqueza, seu ensinamento e exemplo, seu consolo, o Pão com que havia de alimentar-se até à vida eterna. Naquele momento, José representava com o seu pedido o desejo de todos os homens, de toda a Igreja, que necessitava d’Ele para manter-se viva eternamente.

O pequeno grupo, que junto com a Virgem Maria as mulheres que o Evangelho menciona expressamente, se encarregou de sepultar o corpo de Jesus, dispõe de pouco tempo para fazê-lo, pois a festa do dia seguinte começava ao entardecer desse dia. Lavaram o corpo do Senhor com extrema piedade, perfumaram-no, envolveram-no em faixas e o depositaram num sepulcro escavado na rocha que, segundo a tradição, era do próprio José e que não tinha sido utilizado por ninguém. Cobriram a sua cabeça com um sudário.

O Corpo de Jesus jaz no sepulcro. O mundo foi envolvido pelas trevas. Maria é a única luz acesa sobre a terra. A Mãe do Senhor, mãe de todos os homens, e as mulheres que tinham seguido o Mestre desde a Galileia, depois de observarem tudo atentamente, vão-se embora, também. Cai a noite. Agora tudo passou. Conclui-se a obra da nossa Redenção. Já somos filhos de Deus, porque Jesus morreu por nós e a sua morte nos resgatou.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ