A Igreja e o diálogo inter-religioso

A Igreja e o diálogo inter-religioso

A Igreja, corpo místico – ou seja, não físico, mas real –, de Cristo prolongado na história (1Cor 12,12-21; Cl 1,24; cf. Pio XII. Mystici Corporis, 1943, n. 58-61), sem negar a sua própria identidade, se interessa pelo diálogo sincero com as outras religiões existentes no mundo e, além de eventuais colóquios teológicos, procura, de forma conjunta, encontrar pontos comuns para o bem da humanidade em geral: a paz, a preservação do meio ambiente, a promoção da dignidade humana etc.

Neste contexto, estão a Declaração Nostra Aetate, do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-65), e as iniciativas concretas promovidas pelos Papas ou Bispos diocesanos na fidelidade à Mãe Igreja.

Com efeito, a Nostra Aetate, depois de breve introdução (cf. n. 1), a demonstrar que as grandes religiões buscam – cada uma a seu modo – respostas aos grandes enigmas humanos (vida eterna, sofrimento, morte etc.), aborda a relação da Igreja Católica com o Hinduísmo e o Budismo (cf. n. 2), com o Islamismo (cf. n. 3), com o Judaísmo (cf. n. 4, o mais longo) e termina com esta bela exortação do Papa São Paulo VI: “Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem.

De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: ‘quem não ama, não conhece a Deus’ (1Jo 4,8). Carece, portanto, de fundamento toda a teoria ou modo de proceder que introduza entre homem e homem ou entre povo e povo qualquer discriminação quanto à dignidade humana e aos direitos que dela derivam. A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião.

Consequentemente, o sagrado Concílio, seguindo os exemplos dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, pede ardentemente aos cristãos que, ‘observando uma boa conduta no meio dos homens’ (1 Pd 2,12), se‚ possível, tenham paz com todos os homens, quanto deles depende, de modo que sejam na verdade filhos do Pai que está nos céus” (n. 4).

Dito isso, devemos lembrar que o diálogo inter-religioso, em nível prático, sempre ocorreu ao longo da história, em especial com os judeus, “nossos irmãos mais velhos”, nas palavras de São João Paulo II. Afinal, o povo judeu foi aquele “a quem Deus falou primeiro” (Missal Romano, sexta-feira santa 13: oração universal VI). Daí ser importante citar alguns exemplos ilustrativos. Relembro antigos e recentes.

Um monge chamado Raul começou a investir contra os judeus em Maiença, Vorms, Spira e Estrasburgo. São Bernardo de Claraval, abade cisterciense do século XII e doutor da Igreja, escreveu uma forte mensagem ao Arcebispo de Maiença. Nela, defende os filhos de Abraão e refuta o monge Raul: “Que ganhamos nós com esses massacres? […] Aprendei, pois, com vosso monge (Raul) a ler a Escritura: ‘Não os mateis, diz ele, quando a multidão das nações tiver entrado na Igreja; Israel será salvo, o Senhor reconstruirá Jerusalém e reunirá as tribos dispersas’.

Porventura, quer ele que o profeta minta e que torne vãos os tesouros da caridade e da misericórdia divina? A doutrina que ele prega não vem dele, mas do demônio que vo-lo envia. Ele se parece muito com seu patrão infernal, o pai do homicídio e da mentira, fonte dessa sabedoria monstruosa, infamante aos olhos de nossos profetas e de nossos apóstolos, negadora da piedade e da graça. Vós sentis a hediondez dessa doutrina sacrílega que, alimentada com um espírito de mentira, gera o sofrimento e a injustiça” (Pierre Riché. Vida de São Bernardo. São Paulo: Loyola, 1981, p. 74).

O historiador Efraim bar Iacob demonstra que os judeus, gratos ao Santo monge, diziam: “O Senhor escutou nossos prantos e voltou-se para nós, enviando-lhes outro monge Bernardo, um dos maiores e dos mais respeitados. Ele dizia: ‘Aquele que levantar a mão contra um judeu ficará responsável por sua vida e é falível como se ele próprio pegasse no espinho de Jesus, pois estes judeus são seus ossos e sua carne’. Se o Senhor não nos tivesse enviado Bernardo, em toda Israel não teria havido nenhum são e salvo” (idem, p. 74-75). A partir dessa data, não poucos judeus colocaram em seus filhos o nome de Bernardo.

Outro exemplo – mais antigo – é registrado e comentado pelo Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti n. 3 e diz respeito a São Francisco de Assis – considerado, a justo título, um santo do mundo inteiro pelo seu modo humilde, simples e verdadeiro de anunciar, sempre sob o amparo da Mãe Igreja, pois nada fez sem a aprovação da Regra de Vida que compôs: primeiro pelo Papa Inocêncio III e, depois, pelo Papa Honório III – com as seguintes palavras: “Na sua vida, há um episódio que nos mostra o seu coração sem fronteiras, capaz de superar as distâncias de proveniência, nacionalidade, cor ou religião: é a sua visita ao Sultão Malik-al-Kamil, no Egito.

A mesma exigiu dele um grande esforço, devido à sua pobreza, aos poucos recursos que possuía, à distância e às diferenças de língua, cultura e religião. Aquela viagem, num momento histórico marcado pelas Cruzadas, demonstrava ainda mais a grandeza do amor que queria viver, desejoso de abraçar a todos.

A fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs. Sem ignorar as dificuldades e perigos, São Francisco foi ao encontro do Sultão com a mesma atitude que pedia aos seus discípulos: sem negar a própria identidade, quando estiverdes ‘entre sarracenos e outros infiéis (…), não façais litígios nem contendas, mas sede submissos a toda a criatura humana por amor de Deus’ (São Francisco de Assis, Regra não bulada dos Frades Menores, 16, 3.6: Fonti francescane, 42-43). 

No contexto de então, era um pedido extraordinário. É impressionante que, há oitocentos anos, Francisco recomende evitar toda a forma de agressão ou contenda e também viver uma ‘submissão’ humilde e fraterna, mesmo com quem não partilhasse a sua fé”.

Mais perto de nós, está o do Beato Charles de Foucauld que, no século XX, viveu como eremita e sacerdote católico entre os muçulmanos no deserto do Saara e, ali, tudo partilhava com eles e deles também recebia carinho e apreço, especialmente quando ficou doente, em 1908: foi, então, cuidado pelos vizinhos islâmicos (cf. Antoine Chatelard. Charles de Foucauld: o caminho rumo a Tamanrasset. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 251-267).

Seu desejo não era o de ser pregador, mas exemplo vivo e atual de Cristo entre eles, de modo que, vendo-o, pudessem pensar: se ele é bom, melhor ainda é o Deus que ele serve. Tencionava testemunhar o Evangelho com a vida de renúncia e entrega a Deus e, por amor de Deus, aos mais necessitados. “Todos vêm ver o Padre. É o que o eremita deseja. Sua porta está aberta sempre. Todo visitante é acolhido como irmão” (Michel Carrouges.

A aventura mística de Charles de Foucauld. São Paulo: Duas Cidades, 1958, p. 167). A cada um recorda a base da Lei divina: “Adorar a Deus e praticar Sua Lei” (idem, p. 168).

A doutrina é, sem dúvida, importante. Tanto que Cristo ordenou: “Ide pelo mundo, pregai o Evangelho a toda criatura, e batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19) e o grande apóstolo São Paulo exclama: “Aí de mim se eu não evangelizar” (1Cor 9,16), mas não podemos nos esquecer, jamais, de que a fé sem obras é morta (cf. Tg 2,17.26) e quem diz amar a Deus, mas não ama seu irmão é mentiroso (cf. 1Jo 4,20). Tal amor, se é verdadeiramente católico (= universal), não pode, de modo algum, ser seletivo, não católico; ao contrário, há de ser total e totalizador.

Cabe aqui, recordar a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37) na qual aparecem divergências no conceito de “próximo”, tanto que o jovem chega a perguntar a Nosso Senhor quem é o seu próximo. Ora, “importa notar que para os israelitas só era considerado ‘próximo’ dois pastores que se associam (re’a), os amigos, os sócios, os compatriotas, pois eles não deviam se misturar com outros (cf. Lv 19,19).

O estrangeiro, salvo se fosse um oficial romano, não tinha valor algum. Ninguém era obrigado a ajudá-lo. Certo é que em Lv 19,34 e Dt 10,19 é preceituado o amor ao estrangeiro, porém não a qualquer um, mas, sim, apenas, ao estrangeiro domiciliado em Israel e, de certo modo, assimilado, por adoção ao povo de Israel (ger). Eis, pois, um importante pano de fundo da parábola” (Recorramos a Santa Gertrudes de Helfta! São Paulo: Cultor de Livros, 2019, p. 81, nota 42). Cristo muda isso: todos somos irmãos!

Em 24 de janeiro de 2002 – assim como em 27 de outubro de 1986 – ocorreu em Assis, na Itália, um Encontro Inter-religioso visando pedir a paz no mundo e por ela se comprometer. A propósito, assim disse o Papa São João Paulo II: “Irmãos e Irmãs aqui vindos de várias partes do mundo! Daqui a pouco iremos aos lugares previstos para invocar de Deus o dom da paz para a humanidade inteira.

Peçamos que nos seja dado reconhecer o caminho da paz, das relações justas com Deus e entre nós. Peçamos a Deus que abra os corações à verdade sobre Ele e sobre o homem. A finalidade é única e a intenção é a mesma, mas rezaremos segundo as várias formas, respeitando as tradições religiosas dos outros.

Em última análise, também nisto há uma mensagem:  queremos mostrar ao mundo que o impulso sincero da oração não impele à contraposição e, menos ainda, ao desprezo pelo próximo, mas, ao contrário, a um diálogo construtivo em que cada qual, sem ceder de qualquer maneira ao relativismo nem ao sincretismo, toma ainda mais viva consciência do dever do testemunho e do anúncio” (Aos participantes do Dia de Oração Pela Paz em Assis, 24/01/2002, n. 7).

Foi, como se vê, algo muito válido que nada teve de sincretismo ou de confusão teológica, uma vez que cada segmento religioso presente teve seu local próprio separado para a oração. O Santo Padre, por exemplo, rezou na basílica inferior de São Francisco de Assis.

Para finalizar – sempre recordando a importância do diálogo inter-religioso que, no Brasil, se entende também aos grupos de raiz afro-brasileiras, não raras vezes perseguidos porque incompreendidos – cito as sábias palavras do Papa Bento XVI dirigidas aos Participantes da Plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo inter-religioso, em 07/06/2008:  “Na inauguração do meu Pontificado, afirmei que ‘a Igreja deseja continuar a construir pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, com a finalidade de buscar o bem autêntico de todas as pessoas e da sociedade no seu conjunto’ (Discurso aos Delegados das outras Igrejas e Comunidades eclesiais e das outras Tradições religiosas, 25 de Abril de 2005).

Através do ministério dos Sucessores de Pedro, inclusivamente da obra realizada pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e mediante os esforços levados a cabo pelos Ordinários locais e pelo Povo de Deus no mundo inteiro, a Igreja continua a ir ao encontro dos seguidores das diferentes religiões.

Deste modo, ela dá expressão daquele desejo de encontro e de colaboração na verdade e na liberdade. Segundo as palavras do meu venerável Predecessor, Papa Paulo VI, a principal responsabilidade da Igreja é o serviço à Verdade ‘verdade sobre Deus, verdade sobre o homem e o seu destino misterioso e verdade sobre o mundo. Verdade difícil que nós procuramos na Palavra de Deus’ (Evangelii nuntiandi, 78).

Que o Divino Espírito Santo nos inspire a frutuosos diálogos inter-religiosos na fidelidade à Mãe Igreja.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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