A paz como caminho da esperança

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A paz como caminho da esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica!

Todo dia primeiro de janeiro, desde 1967, comemoramos o Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa São Paulo VI. Neste ano de 2020, na 53ª Mensagem Pontifícia, o Papa Francisco coloca como tema de sua reflexão: “A paz como caminho da esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica!”. A mensagem é centrada em dois eventos de grande significado para a vida da Igreja e do mundo: a celebração do Sínodo Extraordinário da Pan Amazônia e a visita apostólica do Papa Francisco ao Japão, quando relembrou que é sempre preciso combater a guerra e que é incoerente ser contrário à guerra e produzir armamentos militares. O Papa Francisco nos recorda que: “o desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos”.

O Papa Francisco insiste que devemos suportar a diversidade e que devemos ouvir o outro, porque quando nos fechamos ao diálogo nasce a famigerada guerra: “Sabemos que, muitas vezes, a guerra começa pelo fato de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio. Nasce, no coração do homem, a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo. A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo; e simultaneamente alimenta tudo isso.”

A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade: “testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição. “Não podemos permitir que as atuais e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno”.[4] Como eles, há muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem às gerações futuras o serviço imprescindível da memória, que deve ser preservada não apenas para evitar que se voltem a cometer os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilusórios do passado, mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras.

“Mais ainda, a memória é o horizonte da esperança: muitas vezes, na escuridão das guerras e dos conflitos, a lembrança mesmo de um pequeno gesto de solidariedade recebida pode inspirar opções corajosas e até heroicas, pode colocar em movimento novas energias e reacender nova esperança nos indivíduos e nas comunidades.”

A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna, por isso o Papa Francisco relembra a virtude do respeito pelo outro: “Somente escolhendo a senda do respeito é que será possível romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança. Guia-nos a passagem do Evangelho que reproduz o seguinte diálogo entre Pedro e Jesus: «“Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”» (Mt 18, 21-22). Este caminho de reconciliação convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso coração a força do perdão e a capacidade de nos reconhecermos como irmãos e irmãs. Aprender a viver no perdão aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz. O que é verdade em relação à paz na esfera social, é verdadeiro também no campo político e económico, pois a questão da paz permeia todas as dimensões da vida comunitária: nunca haverá paz verdadeira, se não formos capazes de construir um sistema económico mais justo. Como escreveu Bento XVI, «a vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade económica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão».[8]”

A paz, caminho de conversão ecológica, aonde todas as hostilidades contra os outros devem ser superadas pela reconciliação, particularmente com a preservação e o compromisso de uma casa comum para todos: “Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais – considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –, precisamos duma conversão ecológica. O Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças. Este caminho de reconciliação inclui também escuta e contemplação do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De fato, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a própria Terra foram-nos confiados para ser «cultivados e guardados» (cf. Gn 2, 15) também para as gerações futuras, com a participação responsável e diligente de cada um. Além disso, temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspectiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à recepção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice.”

Por isso devemos conviver e respeitar os outros nas suas diversidades e respeitar a vida recebida como dom de Deus.

De fato, não há homem que não deseja a paz desde o mais profundo de seu ser. E, paradoxalmente, na busca por satisfazer a esse anseio de paz, ele pode acabar se envolvendo em toda espécie de conflito. Muitas vezes, a história o prova principalmente pelas grandes guerras que devastaram o mundo no século passado, a paz somente foi conquistada pelo preço altíssimo do sacrifício de tantas vidas humanas. A paz que está ao alcance de um mundo sem Jesus Cristo sempre terá um sabor amargo.

Porém, o nascimento de Jesus Cristo nos oferece uma nova perspectiva: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vô-la dou como o mundo a dá” (cf. João 14, 27).

A paz do mundo pode ser conquistada por diversos modos: seja pelo diálogo em que os interlocutores silenciem voluntariamente suas divergências, seja por um terceiro investido de autoridade e capaz de abafar as queixas dos contendores, seja pelo aniquilamento da capacidade de reação do adversário etc. A paz do mundo é obtida pela renúncia à verdade, à justiça e até mesmo à vida ou integridade física daquele que não quer se resignar.

Essa paz do mundo, que os homens podem alcançar por seus próprios esforços, não é capaz de satisfazer o desejo “profundamente inscrito no coração do homem”, a que o Papa se refere.

Para 2020, o Papa Francisco pede que nos matriculemos na escola que ensina a cultura do Encontro: “A cultura do encontro entre irmãos e irmãs rompe com a cultura da ameaça. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do único Pai Celeste. Para os discípulos de Cristo, este caminho é apoiado também pelo sacramento da Reconciliação, concedido pelo Senhor para a remissão dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou «todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Col 1, 20); e pede para depor toda a violência nos pensamentos, nas palavras e nas obras quer para com o próximo quer para com a criação.”

A paz que o Cristo veio trazer é diversa. Ele mesmo esclareceu que a “sua” paz não se confunde com a “paz que o mundo dá”.

A paz de Cristo não prescinde da verdade. Ele é “a verdade” (cf. João 14, 6).

A paz de Cristo não prescinde da justiça. Ele é o justo juiz que “há de julgar os vivos e os mortos” (cf. II Timóteo 4, 1).

A paz de Cristo não prescinde do amor. Ele deu Sua vida por seus amigos (cf. João 15, 13).

Na noite do Nascimento de Jesus Cristo, noite em que Toto Orbe in pace composito (Kalenda), os anjos cantaram “paz na terra aos homens de boa vontade” (Lucas 2, 14). Quando os homens estavam em paz, paz do mundo, pax romana,essa paz que é incapaz de satisfazer os desejos de seu coração, os anjos vêm lhes falar de outra paz, da paz que só aquele Menino que é Deus lhes pode dar.

Mantendo viva a memória dos que passaram pelas lastimáveis guerras, desponta um horizonte de esperança. A paz é a busca da verdade e da justiça, que exige de cada um uma conversão ecológica e a busca permanente da reconciliação. Devemos aprender a viver no perdão, depor toda violência nos atos, nas palavras, nos pensamentos, nas obras e na nossa missão de anunciar a paz para todos os homens e mulheres de boa vontade e a vivermos em concórdia,  ouvindo, acolhendo, perdoando, construindo pontes e distribuindo fraternidade com responsabilidade ecológica e respeito e trato pela nossa casa comum, a Mãe Terra.

Acompanhe-nos, no dia 01 de janeiro e em todos os dias de 2020, a Bem-Aventurada Virgem Maria, a Rainha da Paz e que a sua mansidão materna nos ensine a sermos mansos, pacíficos e construtores da paz. Neste Dia Mundial da Paz, peçamos ao Príncipe da Paz que todos os homens possam conhecê-lo e amá-lo, para que alcancemos a paz que tanto desejamos.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ