Ofício de Trevas

“Essa é a vossa hora, a hora do poder das trevas” (Lc 22,53).

oficio das trevas
Material para catequese
Material para catequese

Entre as várias tradições populares e devocionais da Semana Santa, esse Ofício é a recitação dos salmos, orações com os sinais do apagamento das velas fazendo memória da escuridão que cobriu o mundo e a preparação para a festa da Páscoa. O Ofício de Trevas é celebrado na Semana Santa – uma tradição antiga e com vários tipos de possibilidades celebrativas. O Ofício de Trevas, apesar do nome, não é algo tenebroso ou obscuro, mas é uma das orações mais belas da Semana Santa. Significa, ainda, que na Semana Santa as trevas vão dando lugar à luz, ou seja, vão matar o Cristo, que é a luz que ilumina as trevas.

Na Sexta-Feira Santa, a luz se apagará, ficará adormecida e as trevas tomarão conta do mundo. Basta lembrarmos que quando Jesus foi crucificado, uma grande escuridão toma conta da terra, o sol parou de brilhar e a cortina do santuário rasgou-se pelo meio. Ou seja, esse sol que parou de brilhar é o próprio Cristo. Mataram a Luz e ela voltaria a brilhar no Domingo de Páscoa e brilharia eternamente sobre nós.

Esse é o sentido de celebrarmos o Ofício de Trevas, após cada salmo recitado, vai se apagando uma vela e vamos ficando na escuridão e a celebração termina em silêncio, da mesma forma que fica a terra na Sexta-feira Santa. E assim, nos preparamos para celebrarmos o Tríduo Pascal, tendo a certeza de que a luz por um tempo se apagará, mas ressurgirá mais forte ainda na grande Vigília Pascal.

Durante algum tempo, este rito permaneceu guardado pela Igreja, mas atualmente vem sendo retomado em diversas paróquias do Brasil. O mesmo acontece com as outras celebrações da Semana Santa, como as Sete Palavras de Cristo na Cruz, as Sete Dores de Nossa Senhora e a Procissão do Encontro. É preciso celebrar com fé e piedade a Semana Santa e resgatar no coração dos fiéis todas essas celebrações. Celebrar a Semana Santa todos os dias nos ajuda a vivenciar ainda mais o Tríduo Pascal.

O Ofício de Trevas, de maneira especial, retrata de forma bastante clara a figura do servo sofredor, ou seja, daquele que sofre em silêncio, o justo que é entregue à morte nas mãos dos injustos. Colocamo-nos junto ao servo sofredor, rezando e meditando sobre a sua paixão e morte de Cruz. O Ofício de Trevas também remonta as palavras de Jesus quando foi preso: “Essa é a vossa hora, a hora do poder das trevas” (Lc 22,53). Ou seja, o poder das trevas sobrepõe à luz que Cristo. Nesse momento, Ele nada pôde fazer, pois o coração das pessoas se fechou à luz que era o próprio Cristo. A luz vai reacender no coração das pessoas, a partir da ressurreição.

Que o nosso coração não se feche para a luz de Cristo e não deixemos com que as trevas dominem sobre nós. Celebremos o Ofício de Trevas com a esperança de que a luz que hoje se apaga, reacenderá no Sábado Santo e brilhará para sempre em nossa vida. Ainda está em tempo de realizarmos a nossa confissão sacramental, se ainda não o fizemos, para que a luz de Cristo sobreponha as trevas e possamos celebrar a Páscoa de maneira plena.

O Ofício de Trevas deve sempre ser realizado ao cair da tarde ou à noite e os fiéis devem ter consigo velas. No presbitério, é colocado um candelabro de 15 velas: uma delas é na cor branca, as outras são na cor amarela. As velas que vão se apagando representam os discípulos, que pouco a pouco abandonam Nosso Senhor Jesus Cristo durante a paixão.

Ao final de cada salmo recitado, apaga-se uma das velas, permanecendo acesa até ao final a vela branca, que representa a luz de Cristo. Essa é a última a ser apagada e que deve permanecer acesa em nosso coração. Jesus ficou sozinho nas mãos daqueles que o conduziam à morte, enquanto os discípulos fugiram de medo. Que nós não abandonemos Jesus e permaneçamos com Ele até o fim. Passemos pelo calvário e cheguemos com Ele até a ressurreição.

Ao final da celebração, todas as luzes da Igreja se apagam para representar a situação que vivemos nesse momento e quando Cristo morreu. O ruído no fim do Ofício de Trevas significa o terremoto e a perturbação dos inimigos e recordam a desordem que sucedeu na natureza, com a morte de Nosso Senhor. Por isso, é comum que ecoem o som das matracas.

Esse rito nos conduz à fé na ressurreição. Sabemos que Cristo foi entregue e morreu na Cruz, mas ressuscitou e permanece vivo no meio de nós. Por isso, que as velas se apagam ao final de cada salmo recitado, mas a vela branca que representa Cristo permanece acesa, representando o momento pascal. A reflexão que fica para nós nessa noite é que o único caminho para estar na luz, é estar em Jesus Cristo.

Ao final da celebração do Ofício de Trevas, e após o som que representam os trovões, a vela que representa a luz de Cristo volta acesa e acendem-se as luzes da Igreja. Nesse momento, representa-se a luz de Cristo que nunca deve se apagar.

Participemos com fé e piedade desse momento, bem como de todas as celebrações da Semana Santa e peçamos que a luz de Cristo sempre permaneça acesa em nosso coração. Acreditemos que sepultamos Cristo, mas Ele ressurgirá glorioso no Domingo de Páscoa. Da mesma forma, os nossos entes queridos que perdemos, sobretudo, nesses últimos dois anos, seja por Covid-19 ou não, nós os sepultamos na certeza de que com Cristo ressuscitarão para a vida eterna.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ