A Palavra de Deus assusta você?

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A Palavra de Deus assusta você?
A Palavra de Deus assusta você?

Conta-nos São Lucas, no capítulo 24 dos Atos dos Apóstolos, que Paulo estava sendo acusado pelos judeus diante do governador Félix. Enquanto aguardava o julgamento, Paulo foi chamado pelo governador e por sua esposa, que pediram que lhes falasse da fé em Jesus Cristo. Paulo começou a fazer a exposição, mas como em sua pregação falou sobre a justiça, a castidade e o juízo futuro, Félix, todo atemorizado, disse-lhe: “Por ora podes retirar-te; eu te chamarei em outra ocasião”. De fato, ele o chamou em outras ocasiões, mas, conforme diz a Palavra de Deus, ele assim o fazia porque se entretinha com Paulo e porque esperava que o apóstolo lhe desse algum dinheiro.

Félix parece em grande medida um cidadão do nosso tempo. Ele buscava o Evangelho interessado nos bens materiais que poderia obter, mas quando ouvia que era necessário se converter, ser santo, casto e que haveria um julgamento futuro, isso o assustava e ele preferia parar de ouvir. Esse episódio é bem significativo para refletirmos sobre uma realidade evidente, mas que muitas vezes parecemos querer esquecer: nem todos se converterão ao ouvir o anúncio do Evangelho, mas não é por isso que devemos suavizar a Boa Nova para atrair mais pessoas.

Muitos de nós poderemos até passar anos ouvindo a Palavra, participando da Santa Missa, ouvindo pregações, rezando, indo a grupos de oração, mas com o coração voltado para as realidades terrenas – bens, saúde, vitória aqui nesse mundo – e não para a conversão que precisamos viver para passarmos pelo julgamento futuro. É como aquela pessoa que diz: “Eu gosto muito do padre fulano, só não gosto mesmo quando ele começa a falar desse negócio de ir para o inferno”, ou “o padre beltrano é muito bom, mas ele exagera quando fala que o casal não pode usar anticoncepcional”.

A Palavra de Deus atinge a alma e o corpo

Félix foi até Paulo talvez esperando ouvir coisas bonitas, românticas, que fizessem carinho no seu ego. Quem sabe ele quisesse ouvir palavras de esperança, promessas de vitória, anúncio de maravilhas e milagres, mas nada que “incomodasse” o seu modo de viver. Nada muito diferente da nossa geração, frise-se.

A Palavra de Deus, contudo, não é uma escova massageadora, feita para nos sentirmos bem. Pelo contrário, ela é “mais penetrante que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas”. Paulo sabia muito bem que não existe “versão light” do Evangelho.

Ele não poderia aliviar o seu discurso para não ofender ou assustar o governador, ou mesmo para que o governador, naquele momento, aderisse à Fé em Cristo, sem necessariamente saber de toda a verdade. O Evangelho é a Verdade. Se você oculta partes incômodas ou que pareçam radicais demais para ouvidos sensíveis, não pode haver verdadeira conversão.

Se Paulo enfatizou a vivência da castidade na sua primeira pregação para Félix é porque muito provavelmente ali se vivia uma devassidão moral muito grande. O que Jesus ensinava às multidões era “convertei-vos e crede no Evangelho”. Tudo começa com a conversão. O Evangelho, portanto, é essa espada que penetra o coração e nos leva a perceber que é necessário um rompimento do homem velho com o homem novo, guiado pelo Espírito Santo.

A Palavra de Deus precisa me incomodar, tocar nas minhas feridas, precisa me atemorizar como atemorizou Félix. A diferença é a maneira como eu respondo à Palavra. Posso decidir fugir ou me esquivar do que me incomoda ou crer na Misericórdia Divina e decidir mudar de vida. E aqui é fundamental que fique bem claro que não existe meio do caminho. Uma pessoa que se esquiva de um pedaço do Evangelho não está vivendo “quase tudo”. Ela continua sem seguir Cristo. O Evangelho pede adesão total: “Sede santos, assim como o vosso Pai Celeste é santo”.

Você é o Felix quando o assunto é o Evangelho?

Examine a sua vida, meu caro irmão, e veja se você não tem se comportado como Félix, que fica chocado com algumas partes do Evangelho e diz que ouvirá aquilo em outra ocasião. Pode não haver outra ocasião. O tempo para se converter não é amanhã ou depois, porque só temos o hoje.

Assim como Félix visitava Paulo na esperança de que ele lhe desse algum dinheiro, nós rezamos a Deus pedindo que nossos negócios prosperem, que tenhamos saúde, que consigamos um marido ou uma esposa. Tudo isso é coisa boa e lícita, mas “o mundo está pegando fogo”, nos adverte Santa Teresa d’Ávila. As almas estão se perdendo por viverem no pecado e nós perdemos tempo pedindo coisas que não contribuem para a nossa salvação nem para a salvação das almas.

Não é tempo de tratar com Deus de assuntos de pouca importância, nos admoesta Santa Teresa. É urgente a salvação das almas, a começar pela nossa própria. Gastemos nosso tempo diante de Deus pedindo a graça da conversão, da mudança de vida. Vivamos em vista do Reino de Deus, do dia do juízo.

Obedeçamos ao que nos foi ordenado por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo mais vos será dado em acréscimo”. Todo o resto é acréscimo. Félix passou cerca de dois anos ouvindo Paulo. Não sabemos se em algum momento após o primeiro encontro ele se converteu ou não, pois Lucas guarda silêncio a respeito disso. Eu sei da minha necessidade de conversão.

Você, caro leitor, deve saber da sua. Não fuja de Cristo. Pelo contrário, deixe-se alcançar por Ele e peça ao Espírito Santo a graça da prontidão quando ouvir o convite sempre urgente do Senhor para abandonar a vida velha e sonolenta e segui-lo até a cruz: “Levantai-vos, vamos!”

José Leonardo Nascimento
www.cancaonova.com