Preparai os caminhos do Senhor!

Preparai os caminhos do Senhor
Material para catequese
Material para catequese

O dia 24 de agosto é a Solenidade de São João Batista. Além da Virgem Maria, São João Batista é o único santo de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra. João, como “Precursor” de Jesus teve, de fato, um papel único na História da Salvação. Filho de Zacarias e de Isabel, a sua vida não desabrochou por iniciativa humana, mas por dom de Deus a dois pais de idade avançada e, por isso, já sem possibilidade de gerar filhos. Situado na charneira entre o Antigo e o Novo Testamento, como Precursor, João é considerado profeta de um e outro Testamento. O paralelismo estabelecido por Lucas entre a infância de Jesus e de João Batista levou a Liturgia a celebrar o nascimento de ambos: o de Jesus no solstício de Inverno e o de João no solstício de Verão.

João, chamado o batizador, é filho de Zacarias e de Isabel, ambos de estirpe sacerdotal. Sabemos pelas palavras do anjo Gabriel, que João (cujo nome significa “Deus é propício”) foi concedido aos dois cônjuges em idade avançada. Já vaticinado na Escritura como o precursor do Messias, João encarna o caráter forte de Elias. A sua missão de fato será semelhante “no espírito e no poder” àquela do profeta Elias, enviado para preparar “um povo perfeito” para o advento do Messias. A criança que vai nascer percebe a presença de Jesus “estremecendo de alegria” no ventre materno por ocasião da visita de Maria à prima Isabel. Enviado por Deus para “endireitar os caminhos do Senhor”, foi santificado pela graça divina antes mesmo que seus olhos se abrissem à luz. “Eis — diz Isabel, repleta do Espírito Santo, a Maria — quando tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu ventre”.

A Primeira Leitura – Is 49,1-6 – fala que como o Servo de Deus, João Batista foi chamado a uma especial missão, desde que foi concebido o seio de sua mãe. Como Ele, recebeu um nome, um chamamento e uma revelação. Como Ele, teve que enfrentar a dureza e o sofrimento no desempenho da missão. Por isso, o nosso texto, retirado dos “Cânticos do Servo de Javé” adequa-se a João Batista. O verdadeiro profeta realiza a missão, confiando unicamente n´Aquele que o escolheu, chamou e enviou. E só d´Ele espera recompensa.

A Segunda Leitura – At 13,22-26 – ensina que o discurso de Paulo em Antioquia, com explícita referência a João Batista, mostra a importância que o profeta tinha na primitiva comunidade cristã. Paulo refere-se também a Davi. Davi e João foram dois profetas que, de modo diferente, e em tempos distintos, prepararam a vinda do Messias: Davi recebeu a promessa do Messias; João preparou a vinda do mesmo, pregando um batismo de penitência. Impressiona, nesta página, a clareza com que João identifica Jesus, e se define a si mesmo. É este o primeiro dever do verdadeiro profeta.

O Evangelho – Lc 1,57-66.80 – fala que o paralelismo estabelecido por Lucas, ao narrar a infância do Batista e a de Jesus é rico sob os pontos de vista literário e teológico. O nascimento de João preanuncia o de Jesus. João, ainda no ventre materno, anuncia um outro Menino. O nome de João é prelúdio do de Jesus. O extraordinário evento da maternidade de Isabel prepara outro, o da maternidade de Maria. A missão de João faz-nos pregustar a de Jesus. Trata-se de uma única missão, em dois tempos; dois tempos de uma única história que se desenrola em ritmos alternos mas sincronizados. Não devemos contrapor a missão do Batista e a de Jesus.

João Batista é dom e sinal maravilhoso da misericórdia de Deus em favor dos seres humanos, que esperavam a vinda do redentor, aquele que viria “para tirar o pecado do mundo”. Todos que contemplaram e todos que ouviram a respeito dos acontecimentos em torno do nascimento do menino e da imposição de seu nome, se perguntavam: “O que virá a ser este menino?” Quem é João Batista? A resposta encontramos no Benedictus, o Cântico de Zacarias. João Batista é o sinal do surgimento da força de salvação de Deus. É a manifestação da divina misericórdia, que salvará os seres humanos, ajudando-os a viver em justiça e santidade. E mais importante: João será “chamado profeta do Altíssimo”, pois aparecerá à frente do Senhor, preparando suas veredas e fazendo com que o povo conheça a salvação que virá por Jesus Messias e nosso Redentor (Lc 1,67-77).

Nesta Solenidade Deus quer a nossa fé! Zacarias manteve-se mudo até o momento que manifestou sua fé e confiança em Deus! Temos e vivemos nossa fé? Ou vivemos emudecidos, privados, por falta de fé, da graça e da misericórdia de Deus?

A Solenidade de hoje é um dia de alegria para a Igreja. E, todavia, João foi um profeta austero, que pregou a penitência com uma linguagem pouco amável: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de conversão e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai a Abraão!’” (Mt 3, 7-8). O profeta exortava a uma penitência que se torna alegria, alegria da purificação, alegria da vinda do Senhor. A missão de João Batista é, de certo modo, a missão de todo o batizado: preparar a vinda do Senhor, o que é mais do que simplesmente anunciar. É preciso colocar ao serviço de Jesus não só as nossas palavras, mas também a nossa vida toda. São João Batista, rogai por nós!

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG