A relevância de uma verdadeira cultura da paz

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A relevância de uma verdadeira cultura da paz

Em minha caminhada, iniciada há 58 anos na vida sacerdotal, pude conhecer e conviver com diversas pessoas em diferentes locais. Não é por acaso que o Papa Francisco escolheu o lema “A cultura do cuidado como percurso de paz” para a tradicional mensagem pelo Dia Mundial da Paz do ano da graça de 2021.

Este não foi um ano como qualquer outro: enfrentamos desafios globais que colocaram nossa fé à prova, exigindo de religiosos e leigos do mundo todo um compromisso ainda maior na disseminação do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O acolhimento aos doentes sempre esteve presente na gênese da Igreja. Em 2020, uma pandemia assolou o mundo, ceifando vidas, enlutando famílias e exaurindo nossos irmãos e irmãs profissionais da saúde.

O Santo Papa Francisco nos lembra que não há paz sem cuidado. “A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz”.

É uma aceno à Carta Encíclica Fratelli tutti, lançada em outubro de 2020, que nos recorda que “em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro”.

Se por um lado a pandemia escancarou a miséria humana, a falta de compaixão de governantes, desigualdades e a importância de colocarmos a vida no centro de toda discussão, Francisco nos convida a ser bússola para nossos irmãos em 2021. “Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais”.

A paz se alcança pelo coração. Em quase seis décadas de vida consagrada, sempre busquei animar a comunidade para vivenciar as bem-aventuranças no dia a dia, com foco na construção de uma sociedade melhor, por justiça social e promoção da paz.

Na mensagem do Papa, um epítome merece atenção: “A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável”. Ora, sabemos que só alcançaremos a misericórdia de Cristo em face da paz, se não abandonamos nossos valores familiares e comunitários. Não se alcança o coração de nosso bom Pai de maneira egoísta ou autoritária.

Que possamos nos fortificar em vivenciar as Bem-aventuranças em nosso dia-a-dia; na vivência e na busca de uma sociedade melhor a todos; pela busca e sede de justiça; nos atos misericordiosos; na promoção da paz (…), “porque será grande a vossa recompensa nos céus” (cf. Mt 5,12a).

Como costume, o Papa não se esquece dos pastores que devem ser o exemplo de cuidado para seu rebanho. “As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos»”.

Em 2021, que possamos ouvir os apelos do Papa Francisco, para que unidos em torno do mesmo propósito, possamos remar juntos no mesmo barco. “Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros»”.

Só há paz verdadeira onde o cuidado esteja centrado na promoção da dignidade humana e da saúde. Rezo a Deus Pai misericordioso por nossos irmãos e irmãs, para que Ele nos livre desta triste pandemia, cuide de todos os profissionais da saúde que se dedicam diuturnamente e abençoe o nosso País e os povos de todo o mundo.

Neste ano, em retiro pro causa da COVID-19, eu tenho acompanhado com a minha oração mais incessante do que nunca, por todos os que como trabalhadores da saúde e os cientistas possam dar uma solução com a vacinação para que a COVID-19 seja vencida e, com esta graça, vivamos em paz, levando o Evangelho da vida para todos os recantos do mundo!

Que em 2021 possamos continuar reunidos espiritualmente e, também, próximos fisicamente para vivenciar o mistério da fé e da comunhão.

Sejamos construtores da paz e promotores da saúde universal para todos, com o cuidado com o outro, em nome de Cristo!

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG.