Justificando a injustiça

Justificando a injustiça

A justiça Divina tarda, mas não falha.

Dizem que ela é cega. Não sei se por sua imparcialidade ou pela teimosia em não enxergar a verdade em fatos óbvios. Dizem também que é lenta, quase sempre chega atrasada. Mas que dia mais, dia menos, há de se manifestar. Só que essa não é a justiça dos homens; pelo menos a que conheço. A Divina, sim, tarda, mas não falha.

Meu preâmbulo tem dois enfoques, um bom, outro ruim. Qual vai primeiro? Para contentar a gregos e troianos, começo por uma fábula oriental. Pra ser mais preciso, árabe e brasileira, já que seu formulador foi o grande contista Malba Tahan, aquele brasileiro com alma oriental, que nos provou ser o homem calculista por natureza. Sim, provou-nos sua tese com a obra prima “O Homem que Calculava”. Do que falo mesmo? Justiça, o bem e o mal; cálculos humanos? Eta sopa de letrinhas; de assuntos! Ah, é isso, uma sopa mesmo.

Dizia nosso contista que num reino não muito distante, certo criado ainda inexperiente tremia ao tentar servir a primeira colherada de sopa no prato de seu rei e senhor. Tão desastrado como muitos dos garçons que bem conheço e que trocaram o cabo de uma boa enxada pelo cabo de conchas ricamente ornadas, como se a mesma coisa fosse! O fato é que o criado, mudo de medo, acabou por entornar a colher de sopa e manchar o punho de seda de seu soberano.

Indignado ante tamanha afronta à sua dignidade real, o soberano não hesitou em aplicar-lhe a pena máxima: “Enforquem-no!”. Tomado de indescritível espanto, o rapaz não se conteve e atirou a sopeira inteira na cara do rei. Foi um corre-corre geral, a maioria preocupada em auxiliar o soberano ferido em sua realeza, enquanto o pobre garçom era imobilizado e preso como o mais vil dos bandidos. Refeito da afronta, o rei quis ouvir seu agressor: “Homem! Por que fizeste isto?”. A resposta surpreendeu a todos: “Por fidelidade… Porque se fosse condenado pelo meu primeiro deslize, Vossa Majestade entraria para a história como um rei cruel, injusto. Mas depois que lhe atirei a sopeira, poderei morrer com a consciência tranquila, pois de fato cometi um crime insultuoso, que merece castigo”. Assim o soberano compreendeu o tamanho da injustiça que estava prestes a praticar e se justificou diante de seu povo perdoando o rapaz.

Há muitos soberanos por aí precisando de uma sopeira na cara. Nosso conceito de justiça é muito relativo e às vezes suas sentenças ultrapassam a linha do bom senso. A lei é fria, mas acima dela está a consciência dos que a interpretam e a põe em prática. Jesus nos dizia que não veio para mudar a lei, mas atrelar sua prática ao coração, ao sentimento humano que sabe discernir seus pesos e medidas, sua capacidade de amar ou odiar, de condenar ou perdoar. “Assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei, porque pela prática da lei ninguém será justificado”, dizia Paulo (Gl 6,16). E nos lembrava que “se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu inutilmente”.

Não sei quem vestirá essa carapuça. A verdade é que ela nos serve a todos, com nossos conceitos primários de justiça e bem comum, do que é certo ou errado. Fatos recentes estão aí, para comprovar a superficialidade de nossos julgamentos. Quem é o culpado, por exemplo, na vida incestuosa daquele pai lá do Maranhão, que a imprensa diz ser um “monstro”? A sociedade não teria parcela nessa história, face tantas exclusões que pratica? Qual a razão do surgimento de esquadrões militares, que cometem ações de extermínio como se fizessem um bem à sociedade? Por que uma mãe que rouba um pacote de bolachas num supermercado é passível da mesma pena de um ladrão de banco? Por que se pode punir um rebelde político, mas o repressor que excede em sua autoridade não?

Mas é bom clarear: nada justifica a injustiça humana, porém toda injustiça há de ser justificada diante do Rei maior, que só se excede na Lei do Amor.

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