Na pandemia, uma igreja sempre samaritana

pandemia papa Francisco rezando
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Nossa geração é marcada por profundas e abruptas mudanças e até mesmo rupturas culturais, políticas, sociais e morais, que se manifestam na sociedade como descontinuidade de todos os nossos referenciais do passado. Ora, a Palavra de Deus nos ensina que jamais se deve dizer “como pode ser que os dias de outrora eram melhores que estes de agora? Pois esta pergunta não é inspirada pela sabedoria” (Eclesiastes 7,10). Não se trata de desprezar o tempo passado, que é base de referência e construção para o tempo presente, mas fato é que saudosismos não ajudam a resolver as dificuldades da atualidade. Cada época possui os seus próprios desafios e oportunidades. E parece-nos que o grande desafio deste nosso tempo de descontinuidades, talvez seja a pandemia da Covid-19, comparada por muitos como uma espécie de “Terceira Guerra Mundial” a mobilizar todos os grandes e pequenos atores do globo, porém agora contra um inimigo invisível, um vírus, o novo coronavírus. E em meio a este novo desafio de dimensões incomensuráveis, qual tem sido o papel da Igreja? Que oportunidades surgem para ela?

Ora, em uma época de tremendas rupturas, a Igreja continua a exercer o seu protagonismo profético na continuidade dos atos libertadores de Jesus, compendiados no anúncio do Reino de Deus. Foi precisamente para isso que Ele veio ao mundo. E manter-se na continuidade de seu ministério salvífico é expressão máxima de fidelidade ao Senhor. Mas, ao anúncio do Reino feito pelo Salvador, acompanhavam os seus sinais, ou seja, curas, exorcismos, milagres e tantos outros prodígios, que davam autoridade à pregação de Jesus e evidenciava o domínio e a força de Deus n’Ele presentes, de modo que o reino do príncipe deste mundo perdia força e crescia em meio aos homens o Reino de Deus. Entretanto, todos os sinais realizados por Jesus têm por fundamento o amor de seu coração pelos pobres em toda a plenitude da expressão. Jesus em sua vida terrena teve a iniciativa de se aproximar dos pecadores públicos, dos enfermos, dos miseráveis; fiel ao seu Senhor, a Igreja segue continuamente este mesmo caminho ao longo de toda a sua história. Ela fundou hospitais, orfanatos, creches, dispensários, escolas, universidades, etc. Ao longo destes 20 séculos de existência, a Igreja Católica tem sido a maior instituição de caridade já vista na história da humanidade, a levar conforto e esperança para aqueles que mais sofrem; muitos, inclusive, dependem unicamente dela para sobreviver. Quando a Revolução Francesa no século XVIII começou a propagar no Ocidente os seus ideais revolucionários de igualdade, fraternidade e liberdade, a Igreja já o fazia desde seus primeiros decênios. Quando a ONU começou a erguer a bandeira dos Direitos Humanos no pós-guerra, a Igreja já defendia o valor inalienável da vida e da dignidade humanas desde a era apostólica. Quando se fala em defesa dos mais pobres, da vida e da dignidade da pessoa humana, a Igreja não recebe lições. Ela é mestra, especialista em humanidades e a mais profunda conhecedora do coração humano em todos os seus valores e desvalores, estes, fruto da natureza decaída. Longe de querermos aqui tomar a Igreja como referencial para si mesma em todo o seu passado de incompreensões e glórias, mas também pecados, ela é, antes de tudo, serva e imitadora d’Aquele que é o único e verdadeiro referencial para toda a sua existência e missão. Missão, diga-se de passagem, verdadeiramente samaritana, por assim dizer, e confiada pelo próprio Senhor. Na prática do amor ao próximo, a Igreja não faz acepção de religião, cor, nacionalidade e nem ideologia política. Ela é verdadeiramente sacramento da unidade e do encontro com o Ressuscitado, que antes mesmo de ressuscitar, sofreu dor, abandono e desprezo por parte dos homens, assim fazendo-se solidário com todos os que sofrem e apontando para a Igreja o caminho da cruz como o único caminho de seu santo seguimento.

Com efeito, ainda no início deste século, o mundo se depara com a maior crise humanitária que esta geração já viveu. E também agora, neste momento de tormenta, a barca da Igreja segue destemidamente rumo às águas mais profundas, pois é aí onde ela deve lançar as suas redes na presença do Senhor. É aí onde ela vive e realiza a dialética da continuidade de sua missão redentora em fidelidade a Cristo, ao levar a Palavra, ou o anúncio do Reino de Deus, juntamente com os sinais concretos do seu amor pelos pobres.

O Santo Padre, o Papa Francisco, no início de seu pontificado, dizia ver a Igreja como um verdadeiro hospital de campanha. Pois é! Somente agora temos noção do que de fato seja um hospital de campanha. Neste sentido, a Igreja, mesmo com os seus templos fechados, sem poder reunir as massas em grandes momentos celebrativos, e com dificuldades de toda ordem, continua a sua missão samaritana, de modo a todos acolher para servir, curar, confortar, libertar, redimir.

Outrossim, ela é também capaz de lançar um olhar sobrenatural sobre a atual realidade em que vivemos. Esta pandemia, antes mesmo de assim ser classificada, chegou de modo avassalador ao Ocidente exatamente no tempo da Santa Quaresma, tempo do deserto espiritual da Igreja, em que ela é chamada a intensificar tudo aquilo que já faz de modo ordinário em sua cotidianidade, ou seja, suas orações, mortificações e caridade. Ora, a pandemia da Covid-19, apela a nossa fé, esperança e caridade exatamente para intensificarmos todos estes exercícios que são, sobretudo, cristãos. De maneira que o corona vírus surge para nós, por um lado, como verdadeira provação quaresmal, mas por outro, como ocasião privilegiada para a santificação e intensificação missionária.

A Igreja, neste grave momento, de forma redobrada se empenha no serviço e na evangelização dos pobres. Se tudo isso acontece durante a Quaresma, deve se estender ainda ao longo de boa parte deste ano dedicado em nossa arquidiocese à missão apostólica. Com efeito, esta pandemia tem despertado a criatividade do nosso clero e de todo o laicato, também chamado a exercer seu protagonismo na missão pastoral. Tenho visto muitas iniciativas de arrecadação de mantimentos, produtos de limpeza, higiene pessoal, distribuição de refeições para aqueles que não têm moradia, etc. E tudo isso sem mal conseguirmos tomar fôlego após as campanhas que fizemos para socorrer os mais afetados pelas tragédias provocadas por fortes chuvas nos últimos meses. De igual modo, há que se ressaltar também a criatividade de nossos sacerdotes que promovem a fé e levam esperança às pessoas neste difícil momento, transmitindo pelas mídias digitais celebrações e momentos de oração, e tendo ainda a coragem de levar a sagrada unção aos enfermos, inclusive aos infectados.anpa

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro