cristo rei

Meus queridos Irmãos,

Chegamos, enfim, ao término do tempo litúrgico chamado Tempo Comum. Com a solenidade deste domingo, queremos dizer que Jesus Cristo é nosso Rei. Ele nos governa com sabedoria e amor, conduzindo-nos ao bem e a justiça. Quem O segue conhece a verdade que vem do Pai e dá sentido novo à sua vida.

Tradicionalmente, o último domingo do ano litúrgico fala da consumação escatológica do mundo e da História. Neste ano, o tema central do Evangelho é tomado não de São Marcos, mas de São João, que coloca a figura de Jesus na plena luz da glória divina, que nele se manifesta. Assim, podemos ler em João, com clareza, o que em Marcos fica subjacente.

São João(cf. Jo 18,33b-37) afirma claramente que Cristo é Rei, mas explica também que seu Reino não é deste mundo, e sim o Reino do testemunho da verdade, que é Deus, o Criador revelando-se em Jesus, na morte por amor. Pois é na sombra da Cruz que Jesus identifica seu Reino como testemunho da verdade. É na Cruz que Jesus é, por excelência, a “Testemunha fiel”, o “Rei dos Reis”.

Meus caros Irmãos,

Encerramos mais um ano litúrgico, porque temos a certeza de que neste ano em que o Evangelho foi o de Marcos, em tudo “demos graças e trabalhamos em nome do Senhor Jesus, para a glória de Deus Pai”.

Jesus,

morrendo na Cruz pela nossa salvação e irrompendo a morte ao terceiro dia, inaugura um novo Reinado e uma nova humanidade, tendo santificado em si mesmo todas as criaturas, chamadas agora a participar de seu reinado, que é um reinado eterno e universal, de verdade, de amor, de justiça, de caridade e de paz.

Quando queremos coroar a Jesus como Rei de nossa vida, de nossa caminhada, de nossa Igreja, vamos pedir a graça de celebrar a Jesus como Rei do Universo e Rei de nossa vida, procurando pavimentar aqui e agora a vida eterna, prêmio e força que Jesus nos oferece. O binômio de santidade e de caridade nos pavimenta para junto de Deus.

Queridos Irmãos,

Pilatos questiona no Evangelho de hoje(Jo 18,33b-37): “Tu és o Rei dos Judeus?” (Jo 18,33) Jesus devolve a pergunta a Pilatos, indagando ao seu algoz se ele perguntava isso por si mesmo, ou porque outros disseram isso para ele. O Mestre explica que não é um rei terreno, com exércitos e com poderes passageiros. O Reinado de Jesus não é deste mundo, é sim um reinado com gostinho de céu, com gostinho de vida eterna, com gostinho de amor, um reinado de tranqüilidade e paz eterna.

Jesus,

desde os tempos pretéritos, ou seja, desde os tempos do Antigo Testamento é o Rei Esperado como alguém animado pelo Espírito de Deus, capaz de trazer à terra a justiça, a verdadeira piedade, a paz duradoura, o serviço generoso e alegre, a solidariedade, a construção da globalização da partilha e do amor. A segunda leitura, retirada do Livro do Apocalipse, dá a tonalidade messiânica a Jesus, o Rei que ama o Pai e a nós pecadores com o máximo de amor, que para fazer a vontade do Pai e para salvar-nos derrama seu sangue, redimindo-nos, consagrando-nos e fazendo-nos reinar com ele (Ap 1,5-8).

Amados irmãos,

O que é a verdade? Jesus disse hoje que veio ao mundo e que morreu em busca da verdade, para “dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). Verdade no texto de hoje é a amorosa experiência do encontro com Deus, na busca da fidelidade a esse encontro, que a Sagrada Escritura chama de nova e eterna aliança. Jesus veio ao mundo exatamente para tornar visível para sempre o amor indefectível de Deus para com a humanidade e de recriar as coisas, estabelecendo um novo e inquebrantável relacionamento entre as criaturas e o Criador. Esta missão Jesus a confirma diante de Pilatos, ou seja, diante das autoridades do mundo, ao dizer que viera ao mundo para ser rei e dar testemunho da verdade.

Testemunha

fiel ou testemunha da verdade são duas características que Jesus pede de cada um de nós neste domingo, sempre contando com a graça divina que quer de nós, homens e mulheres, santos e fiéis, caminhando para a vida eterna, inteiramente voltados para a vontade de Deus, para os homens, que é a felicidade e a santidade.

A verdade exige do discípulo e do apóstolo coerência entre práxis e vida: assim o discípulo deve ser como Jesus foi diante de Pilatos, ou seja, desapegado, simples, sincero, homem que repartiu e deu uma diretiva para o seu condestável: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Voz que clama por justiça, por paz, por solidariedade, por caridade, por desprendimento, e, mais do que isso, por um compromisso com uma Igreja ministerial e misericordiosa, engajando-se cada vez mais na pastoral de conjunto e na pastoral orgânica.

O Evangelho apresenta-nos, num quadro dramático, Jesus a assumir a sua condição de rei diante de Pôncio Pilatos. A cena revela, contudo, que a realeza reivindicada por Jesus não assenta em esquemas de ambição, de poder, de autoridade, de violência, como acontece com os reis da terra. A missão “real” de Jesus é dar “testemunho da verdade”; e concretiza-se no amor, no serviço, no perdão, na partilha, no dom da vida.

Caros irmãos,

Na primeira leitura(cf. Dn 7,13-14) o Filho do Homem recebe o “poder”. Esta leitura nos prepara para a idéia de um reino transcende, que não pertence aos homens, mas a Deus. Numa visão, o Profeta Daniel vê quatro feras, que se entredevoram: imagem adequada para descrever as relações entre os impérios deste mundo. Daniel pensa nos assírios, babilônios, persas e sírios. Mas poderíamos imaginar os impérios de hoje perfeitamente com as mesmas figuras, mesmo se estes impérios já não dependem de imperadores e sim de magnatas. No fim, porém, todos eles serão vencidos por uma figura de feições humanas “como que um filho de homens”, um ser humano. e este representa os “Santos do Altíssimo”, a corte celestial, os servidores de Deus (modo um tanto mitológico de imaginar uma intervenção de Deus mesmo; o judaísmo tardio esforçava-se para rodear Deus de intermediários, pois não podia haver contato direto entre Deus e os homens. A Deus pertencem o Poder, a glória, o Juízo: ele tem a última palavra sobre o mundo e a História.

Irmãos e Irmãs,

Na introdução do livro do Apocalipse encontramos três títulos cristológicos: 1. a testemunha fiel; 2. o primogênito dos mortos e 3. o que reina sobre os reis da Terra. Nosso Senhor Jesus Cristo testemunhou o que viu e deu a sua vida pela verdade de seu testemunho. Porém, superou a morte, pelo que nele possuímos a ressurreição e a vida. O seu reino é construído sobre o poder da verdade e do amor; realiza-se onde o homem responde com a fé à Verdade, com a fidelidade ao seu Amor. Ele, o Crucificado, livrou-nos do pecado e nos faz participar de seu sacerdócio real.

Na segunda leitura(cf. Ap 1,5-8) A figura de Jesus que é proposta à comunidade é a figura do Senhor do Tempo e da História, princípio e fim de todas as coisas; é a figura do “príncipe dos reis da terra”, que há-de vir “por entre as nuvens” cheio de poder, de glória e de majestade para instaurar um reino definitivo de felicidade, de vida e de paz. Esta imagem de Jesus apela à confiança e à esperança: sejam quais forem as circunvoluções e as derrapagens da história humana, o caminho dos homens não será um caminho sem saída, destinado ao fracasso; mas será um caminho que desembocará inevitavelmente nesse reino novo de vida e de paz sem fim que Jesus veio anunciar e propor.

A ação de Jesus como Senhor da História não se concretizará, contudo, numa lógica de poder, de autoridade, de força, à imagem dos reis da terra. Na sua catequese, o autor do Livro do Apocalipse sublinha o amor de Jesus, manifestado no dom da vida para libertar os homens do egoísmo e do pecado, para os inserir numa dinâmica de vida nova, para os integrar na família de Deus. Jesus, o nosso rei, é um rei que ama os seus com um amor sem limites e que, por amor, ofereceu a sua vida em favor da liberdade e da realização plena do homem. Neste dia em que celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, somos convidados (com as comunidades a quem o Livro do Apocalipse se destinava) a agradecer pelo amor de Jesus que nos libertou do egoísmo e da morte; e somos convidados, também, a ter a mesma atitude de Jesus, substituindo os esquemas de egoísmo, de poder e de prepotência, pelo amor que se faz doação e serviço aos homens.

Na apresentação feita pelo autor do Livro do Apocalipse, os batizados são convidados a ver Jesus como o centro da história e a fazerem d’Ele a coordenada fundamental à volta da qual se constrói a existência humana, em geral, e a existência cristã, em particular.

Prezados irmãos,

As leituras desta liturgia não deixam dúvidas de que, para nós, cristãos, Jesus é o único rei no qual podemos depositar nossa  confiança. Ao celebrarmos a solenidade de Cristo Rei do Universo, somos convidados, antes de mais nada, a acolher e interiorizar esta realidade: Jesus é nosso rei, princípio e fim da história humana, e se faz presente a cada passo de nossa caminhada; é ele que nos conduz à vida plena. Vivemos tempos de profunda crise de  liderança, não somente em âmbito nacional, mas também mundial. Como se apresentam os líderes políticos e econômicos em tempos atuais? Frequentemente são  pessoas de visão limitada, dispostas a governar apenas para seus grupos de interesses, com pouca atenção ao bem comum. Essas  constatações não devem nos deixar desanimados, pois nossa fé nos ajuda a olhar para além dessa realidade. A proposta de  discipulado de Jesus ultrapassa tudo isso. Ele é nosso rei, e depositamos na sua proposta evangélica nossa esperança; é no caminho que ele nos aponta que pautamos nossas ações. A realeza de Jesus não se assemelha à lógica dos poderes deste mundo. O Papa Francisco, em sua encíclica Fratelli Tutti, recorda-nos que, em Jesus, todos somos irmãos e irmãs e, juntos, somos chamados  a construir um mundo mais justo e fraterno. Somos chamados a buscar a fraternidade universal, pois ninguém se salva sozinho. Como discípulos de Jesus, temos a missão de cuidar do mundo como a casa comum de todos.

Caríssimos irmãos,

“Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. E o que é a verdade? – pergunta Pôncio Pilatos. E nós também. Tantas formas de ver a verdade. Cada um procura fabricar a sua pequena verdade pessoal. Porém, a verdade só se pode encontrar em Jesus. Jesus veio para olhar os homens à luz do olhar de seu Pai, para testemunhar esse olhar. Jesus pôde dizer “Eu sou a Verdade”, porque seu Pai encarregou-O de chegar a cada ser humano na última profundidade do ser. Só o olhar do Pai pode dizer a última verdade de cada ser. Este olhar só pode ser amor infinito. Eis porque Jesus não pode condenar ninguém, nem sequer Pilatos, nem os seus carrascos. Cristo Rei do universo? Sim, sob a condição de não se esquecer que o seu Reino não é somente o amor da verdade. É primeiramente a Verdade do Amor.

Queridos irmãos,

Se Jesus é Rei, Ele precisa de um trono.

Qual é o trono de Jesus, portanto? Não o trono da glória, mas o trono do sacrifício, porque o seu trono é a Cruz, lenho bendito de onde Ele reinou.

Jesus caminhou serenamente para o seu trono que é a Cruz. Cada um de nós tem como meta à Cruz de Cristo, não a Cruz somente do sofrimento e da fadiga, mas a Cruz da Ressurreição, da vida eterna, do gozo sem fim.

Jesus não veio fazer concorrência com os reis e senhores desta terra. Jesus está acima de todos e todos e cada um lhe devem estar sujeitos, queiram ou não: “A Ele foi dado poder, majestade e império, e todos os povos, nações e línguas o serviram. Seu poder é um poder eterno, que nunca passará e seu reino jamais será destruído”.

No fim, “Ele entregará à infinita majestade divina este reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, do amor e da paz”. Este reino tem início neste mundo e permanecerá na vida eterna, para sempre. Porque do trono da Cruz, do sepulcro vazio, “a Ele pertence à glória e o poder pelos séculos dos séculos, Amém!”.

Padre Wagner Augusto Portugal

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