Finados alegria da ressurreição

“Ultum tuum, Domine, quæsivi” – Cardeal Moreira Neves – OP

“Oh morte, onde está a tua vitória!” (1Cor 15,55b)

Celebramos, dia 2 de novembro, a esperança cristã. Relembrando da única realidade certa de nossa vida, a morte, somos todos convidados a refletir sobre a nossa existência neste mundo, a nossa conduta, a nossa religiosidade e o que apresentaremos ao Deus da Vida no dia do Juízo. Por isso a Sagrada Liturgia enuncia este dia como “Comemoração de todos os Fiéis Defuntos”. Dia prescrito para que todos os sacerdotes, por concessão especial da Mãe Igreja, podem celebrar três missas em sufrágio de todas as almas.

Em Finados, celebramos a liturgia da esperança cristã. Isso porque todos nós temos que contemplar a irmã morte como a companheira certa, depois de combater o bom combate e terminar a carreira, esperando levar pelo menos a fé até Nosso Redentor. Tudo isso dentro da esperança cristã de que a vida não é tirada, mas continuamente transformada, relembrando o Prefácio da Liturgia dos Fiéis Defuntos.

Ora, se Jesus Cristo ressuscitou para a nossa salvação, a morte não é o fim, mas o começo da vida em Deus, com Deus e para Deus. Vivemos permeados pela presença amorosa de Cristo e morremos na esperança de que Ele nos acolherá, com misericórdia e candura, nos seus braços generosos.

Por isso, é muito importante traduzir o Mistério de Deus e a completude da existência.

A primeira leitura de hoje nos relembra uma expressão muita cara à minha caminhada: “Sentir-se na palma da mão de Deus” (Sb 3,1). Esse estar “palma da mão de Deus” é sentir-se protegido, observado atentamente, no côncavo que se forma a anatomia humana da mão ao segurar algo. Esse recolhimento na mão de Deus não nos permite aproximarmos do abismo, porque ela [a mão] se transforma, então, num espaço ilimitado, é um todo que nos guarda sob o olhar divino.

E, como São Paulo nos exorta, a caminhada e a existência cristã é, nada mais, nada menos, o estar unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo, que nos purifica do pecado e nos torna amigos do Salvador do gênero humano. Unido com Cristo, na participação dos Santos Sacramentos, na vivência de sua Palavra, na prática das virtudes que enriquecem nossa alma… sempre sob o olhar de Deus, na palma de Sua mão.

Irmãos e irmãs,

A Igreja sempre nos convidou a refletir sobre a realidade da morte. Por que isso? Porque a morte é a memória da ressurreição.

Hoje, somos convidados a relembrar os mortos queridos, ou os entes queridos, os familiares, nossos benfeitores já falecidos. Hoje é dia de relembrar do pároco e do bispo que nos precederam na vida eterna, que tantos benefícios distribuíram em favor de nossa santificação pessoal; a santidade, meta cristã que refletimos, ontem, na liturgia da solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus.

Os mortos vivem em Deus; é a comunhão dos santos, que nós cremos e professamos: “Creio na comunhão dos Santos, creio na ressurreição da carne, creio na vida eterna”.

Crer na comunhão dos santos é dizer que, enquanto peregrinamos neste vale de lágrimas, vivemos (Igreja Militante) unidos pela fé com os que estão no Purgatório (Igreja Padecente), que celebramos hoje, e com os que estão no Céu (Igreja Triunfante), solenidade de 1º de novembro. E o principal que constitui essa “comum união” é o enlaçamento com Nosso Senhor Jesus Cristo, cabeça do Igreja, formando o seu Corpo Místico.

A reflexão da morte não deve, portanto, ser a partir do sentimento de desolação da perda, de um fim, mas um doce começo da mais importante fase da vida: quando se inicia a sua plenitude, a vida eterna, contemplando o Absoluto face a face. Mortos para o mundo, vivificamos para a vida plena.

Chorar a morte dos entes queridos é da natureza humana. Até Cristo chorou a morte do amigo Lázaro. O consolo, todavia, encontramo-lo na certeza da ressurreição.

Caros irmãos,

Dentro da variedade de formulários para a Missa de hoje podemos ler o Evangelho de São Lucas 12,35-40, cujo o tema é a vigilância: Vós também, ficai preparados! Lembre-se que a virtude da vigilância é por si mesma, uma atitude escatológica a aguardar constantemente o retorno do Senhor.

Os servos vigilantes, a representar os membros da comunidade eclesial, são felizes porque o próprio Senhor, por ocasião de seu advento, fará a função de servo, cingindo-os e colocando-os à mesa.

A vigilância escatológica é a virtude de quem aguarda o fato derradeiro. Por isso, o Filho do Homem que há de vir sobre as nuvens dos céus (Dn 7,13), por ocasião da Parusia, assemelha-se ao ladrão que não avisa a hora do assalto.

A vigilância supõe e exige um estado constante de preparação para o juízo escatológico, colocando os fiéis de Cristo em estado permanente de crise, de modo especial, aqueles que têm a missão de anunciar o Reino à semelhança do administrador fiel e prudente.

Neste caso, a escatologia possui uma dimensão presente e eclesial, pois o juízo definitivo supõe a avaliação das atividades atuais dos fiéis, mediante as penas impostas pelo Senhor.

A provação dos últimos tempos acentua a responsabilidade histórica do cristão, sobremaneira agradecido pelos bens messiânicos: a quem muito se deu e foi confiado, muito será pedido e reclamado. Por tudo quanto dissemos o importante é não se desviar, não se distrair.

É manter-se sempre alerta, acordado, e esperar até o final pela segunda vinda gloriosa do nosso Senhor Jesus Cristo. Feliz és tu se assim estás procedendo! Porque o próprio Senhor passando te servirá, como fez na Última Ceia, com seus Apóstolos. Pai, somente em ti quero centrar as minhas opções mais profundas, para não permitir que o egoísmo tome conta do meu coração e me afaste de ti.

Prezados irmãos,

A morte nos leva a refletir sobre dois pontos centrais de nossa fé. Primeiro, a vida é sempre um estado de espera, desde o nascimento, ao longo do processo de crescimento e de formação, a juventude, a idade adulta, a idade avançada, sempre estamos esperando.

No dia final, de tanto esperar, nós encontraremos a visão beatífica de Deus, como nova criatura destinada a viver para sempre junto de Deus. Quando morremos, segundo São João, nós nos tornamos semelhantes a Deus, porque O veremos como Ele é (1Jo 3,2).

A segunda imagem que devemos tê-la em mente é a do BATISMO. Todos nós, hoje, somos convidados a refletir e revigorar o nosso batismo. Por meio desse primeiro Sacramento morremos pela primeira vez. É a morte do homem corrompido pelo pecado original e o renascimento para a vida da graça sacramental em Cristo Jesus.

A morte é, pois, parecida ao Batismo. Somos despidos da veste corruptível, que é o corpo, submerso que fica na terra, de onde ressuscitará com uma veste nova no último dia, que é o corpo glorioso da ressurreição.

Todos nós vivemos para um dia ver a Deus, um dia estar com Deus no absoluto, porque São Paulo já cantou: “Para mim, morrer é lucro, o importante é estar em Deus, o Salvador!” (Fil 1,21).

Irmãos e irmãs,

A morte para o cristão é a pedra de toque de sua vida. O arcebispo de São Salvador e Primaz do Brasil, Dom Lucas Cardeal Moreira Neves – OP, deu-nos um edificante exemplo de fé na misericórdia de Deus, a quem consagrou a sua vida: “Vultum tuumn, Domine, quæsivi”, inspirado, certamente, em Santo Anselmo, nas suas lucubrações sobre a existência de Deus.

Rezava o venerando Cardeal: “Passei a minha vida na busca do rosto sereno e radioso do meu Senhor. Agora o encontrei.”

Na esperança desse encontro, alimentados pela esperança de tantos que, como Dom Lucas, desfrutam dessa vivência eterna com Deus, rezemos pelos mortos.

Rezemos, especialmente pela almas de nossos bispos;  pelos padres, religiosos, religiosas e fiéis leigos que ajudaram a construir a grande Igreja de Deus e que, fiéis ao Batismo, encaminharam os corações para ver a Deus.

Rezemos, de maneira especial, pelos nossos parentes, bemfeitores e amigos que nos precederam na glória do céu!

Que, do Céu, a Igreja Triunfante se una a esta Igreja Militante para que, na comunhão dos santos, unamo-nos à Igreja Padecente em seu sufrágio e obtendo dela a participação nessa tríplice comunhão, na esperança de podermos, também, um dia, alcançarmos a plenitude da vida em Cristo Ressuscitado.

Repito, a esperança cristã nos diz que nossa vida continuará após a morte, quando seremos transformados e obteremos um corpo glorioso. Assim, o homem e a mulher, como um todo, ressuscitam e participam da alegria e da paz eterna.

Dificuldades em aceitar a morte são naturais à natureza humana. Mas urge nos despirmos da tristeza e, repletos de esperança cristã, com doce alegria, rezarmos para que todos nos encontremos reunidos na casa do Pai.

Essa é a nossa fé e é essa a nossa maior esperança.

Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz! Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal