Descendimento da cruz

            “Eis o homem!”

            Ecoa desde há dois mil anos a infame apresentação que o pusilânime Pôncio Pilatos fez de Nosso Senhor, do balcão do pretório, enquanto a turba indecorosa, ululante, escarnecedora, mais uma vez preferia as trevas à Luz.

            (…)

“Eis o homem!”

Estamos agora diante do lúgubre Calvário.

Aquele ambiente de desolação se estende por todo o mundo, alcança o céu, influencia a natureza.

“Ou um deus está morrendo, ou o mundo está se acabando”, teria exclamado, espantado, um astrônomo distante daquelas terras, alheio ao que acontecia em Jerusalém.

“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele” (Is 53,3).

            Estava ali, suspenso no madeiro da ignomínia, a vítima em holocausto pela remissão dos pecados do primeiro homem. Ali, naquele Lugar da Caveira, sobre a caveira do primeiro homem – conforme rezava a tradição -, onde brotara a árvore da vida, que resgataria das trevas a dignidade humana perante Deus, que tiraria do exílio o novo homem.

            “Jerusalém, limpa o coração da maldade, a fim de que consigas a salvação” (Jr 4,14). É preciso que o sangue que jorra da árvore da vida escorra pelo monte, alcance Jerusalém e a lave da corrupção do mal que inebria o coração dos homens.

            “Anunciam-se desastres sobre desastres” (Jr 4,20).

            Jerusalém está desolada. O mundo todo está devastado. O universo fechou-se em luto. Do céu, repartido por raios, derrama-se o pranto da natureza, pela frialdade dos homens que levam à morte o seu Deus e Senhor.

            “Jerusalém, Jerusalém, converte-te ao Senhor teu Deus!”

            (…)

            Estamos diante do lúgubre Calvário. É o altar do sacrifício. É onde o Cristo se entregou ao Pai, em holocausto, para a nossa redenção.

            Estamos diante o altar onde o Deus humanado restitui-nos a graça, a vida eterna.

(…)

            “Ouço gritos como os da mulher ao dar à luz, gritos de angústia quais os do primeiro parto. São os clamores da filha de Sião; geme e ergue as mãos: Desgraçada de mim! Desfaleço ante os algozes.” (Jr 4,31).

Esses gritos, porém, se ouve ao longe. É o arrependimento daqueles que lançaram às mãos malditas o corpo de nosso amado Jesus, que entregaram ao seu juízo a dignidade do Príncipe da Paz, Rei dos Séculos Futuros. É o grito da traição de quantos abandonam Nosso Senhor pelo pecado. É o grito dos celerados que promovem a violência, que corrompem a paz.

(…)

“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele” (Is 53,3).

Vemos, hoje, esse rosto desfigurado, esse corpo chagado, esse estado deplorável em cada irmão desprezado pelos poderes públicos, em cada marginalizado pela sociedade, em cada criança abandonada pela sorte e pela caridade fraterna que pouco se pratica, em cada vítima da violência neste mundo em que o capitalismo e o hedonismo disputam a conversão de almas, afastando-as de Nosso Senhor, distraindo-as do caminho da salvação e seduzindo-as para a perdição eterna.

            “Era desprezado…” e ainda o é pelos católicos que, por respeito humano, se calam diante das heresias que se dizem em todos os lugares e se omitem ante os sacrilégios e profanações que se cometem em nossas comunidades. Católicos relaxados que buscam se informar sobre tudo e sobre todos, menos conhecer a Doutrina – o Catecismo ao menos – e contestam veementes as decisões da Igreja e de seu Magistério.

            Aquele que se julga capaz de discordar da autoridade do Papa no que diz respeito aos dogmas e à moral católica é um infame. Não é católico. É um seduzido por Lúcifer, no seio da Igreja, para corrompê-la. E temos muitos desses por aí, até no meio do clero, infelizmente, escandalizando muitos “cristos” de sua prepotência e ignorância. Rezemos pela conversão dessas pobres almas, pois por elas também verte o sangue redentor desta cruz.

“Era desprezado…” e ainda o é pelos pais que se sujeitam aos paparicos dos filhos mal-educados pela televisão, pela internet, pelas más companhias, soltos no mundo, à mercê da carne e do demônio.

“Era desprezado…” e ainda o é pelos governantes e homens públicos que se regalam com o poder diante de bocas famintas, vendo corpos esquálidos pela enfermidade e sem nenhuma assistência, omissos às vítimas das drogas, assistindo e por vezes promovendo a beligerância entre os povos, alheios a tudo o que assegura uma vida digna aos pobres, aos pequeninos acolhidos por Nosso Senhor.

“Era desprezado…” pois estava destinado a descer aos infernos para libertar os cativos do pecado de Adão. “Æstimatus sum cum descendentibus in lacum, factus sum sicut homo sine adjutório, inter mortuos líber” – “Chegou a ser homem como sem socorro, livre entre os mortos”, canta o Salmista (Sl 87).

“Christus factus est pro nobis obediens, usque ad mortem, mortem autem crucis” – “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8).

(…)

            Meus irmãos,

            Estamos diante do mais belo cenário da história da humanidade. Assistimos à representação do mais importante drama de amor de todos os tempos. “De tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16-17).

            E na contemplação desse quadro que aos céticos causa espanto, mas aos fiéis deve inflamar a devoção a Deus, deparamo-nos com uma síntese da vida do cristão.

            O mandamento maior é o primeiro pelo qual, segundo os relatos do Evangelho, Nosso Senhor teria clamado do alto do patíbulo: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). É o amor ao próximo que nos lega como primeira de suas últimas lições. Ele perdoa seus algozes. Ele se compadece da humanidade pecadora e, não bastasse morrer por amor, ainda suplica a Deus por aqueles que o maltratam. E constatamos as palavras de Santo Agostinho, quando nos diz que “a Cruz não foi apenas lugar de sofrimento, mas cátedra de ensino”.

            Na sua agonia, vítima dos mais cruéis opróbrios dos infames verdugos que o prenderam, o açoitaram, o maltrataram e, por fim, o pregaram na cruz, suas palavras ainda resvalam esperança. “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43), é a promessa de salvação para aquele pobre homem, sabe-se lá por que estava ali, crucificado ao lado de Jesus… É a esperança decorrente da confiança em Deus. Os pecados daquele pobre homem que se definhava ao lado de Jesus não foram tão sórdidos, a ponto de reconhecer a inocência do Redentor e confiar, humildemente, nele: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino” (Lc 23,42). Jesus, clamamos hoje, lembra-te de nós, míseros pecadores, compassivo, agora e na hora de nossa morte.

            A caridade mais uma vez se esvai da Paixão de Cristo, fonte de misericórdia; caridade para com os seus, caridade para com todo o mundo. Primeiramente se dirige à sua mãe, a Virgem Dolorosa que ao pé da Cruz, em silêncio, contempla aquele martírio e medita sobre os desígnios de Deus. “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26). Quebrava o silêncio aquelas palavras de Jesus. Na pessoa do discípulo amado, João, aquele que O acompanhou até o último instante, estavam representados todos aqueles que acreditaram nEle e que O veriam em sua glória, assim como Pedro, Tiago e João assistiram no Tabor, “cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). E confirmavam esse comércio de seu amor as palavras dirigidas a João: “Eis aí tua mãe” (Jo 19,27). Maria nos é dada como mãe, mãe de seu Corpo Místico, mãe dos pecadores, mãe de todos aqueles que professam a mesma fé, que Cristo é o Filho de Deus que veio ao mundo para redimir as nossas culpas, nascido das entranhas puríssimas de uma Virgem predestinada, que naquele instante derradeiro tornava-se co-redentora da humanidade, medianeira de todas as graças.

            E em meio a todo aquele tormento, Jesus nos rege a lição da oração, a oração no sofrimento, a oração na confiança nos desígnios de Deus, a oração nas adversidades, na escuridão da vida espiritual. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes” (Mt 27, 46b). Não era uma blasfêmia, mas uma oração confiante que se desprendia dos divinos lábios, assim como fizera tantas vezes junto de seus pais, José e Maria, nas sinagogas, nos momentos de recolhimento em que se unia ao Eterno Pai. É a paciência nas adversidades que o Salmista em oração nos ensina: “Fiquei mudo, em silêncio, privado da felicidade, mas a minha dor exacerbou-se” (Sl 38,2). Na oração, oferecia-se Jesus a Deus pela nossa salvação. Na oração, apresentemo-nos indefesos a Nosso Senhor para que ele faça de nós instrumentos para a evangelização, concedendo-nos a graça da piedade, do desapego, da compaixão, do abandono, do desejo interminável de poder contemplá-lo face a face um dia, a graça da perseverança final.

            (…)

            Na meditação da Paixão de Jesus, diante deste cenário, deparamo-nos com a figura da Pecadora, agarrada ao pé da Cruz, presa como à tábua de salvação. Sim! Jesus foi a salvação daquela mulher que doravante tornou-se “a penitente”: Maria Madalena. A beleza externa, as vestes insinuantes, as fragrâncias sedutoras, as jóias reluzentes… Nada mais tinha valor para aquela que não desejava outro amor, senão a misericórdia do seu Senhor. E é a essa vítima da sedução do demônio, da fragilidade da carne e da perversão do homem que Jesus suplica: “Sitio” – “Tenho sede” (19,28).

            “Dá-me de beber” (Jo 4,7), foi a súplica do Mestre no poço de Jacó à Samaritana. Ele tinha sede do amor da humanidade, de todos os homens, prefigurada naquele mulher discriminada pela sua naturalidade. E é a ela que Jesus, cansado da viagem, pede que lhe sacie. Ele quer o amor de todos, indistintamente.

            “Tenho sede” é a súplica de Jesus na Cruz, dirigindo-se à penitente.

            Diz uma lenda que, ao ouvir a súplica, Maria Madalena correu até uma talha com água que estaria por perto e tentara matar a sede do Senhor, mas ele recusou a beber. E teria novamente insistido: “Tenho sede”. Lembrara, então a discípula que no palácio de Pilatos havia um licor considerado saboroso, vindo de Roma. Em disparada desceu Madalena do monte Calvário e foi conseguir, por meio de influências, um pouco daquela bebida considerada refrescante, querendo proporcionar alívio ao seu Mestre. E Jesus também recusou.

            Ah, a dedicada mulher que acompanhava Jesus e seus discípulos desde a Galiléia não desanimou. Desta vez foi até o Templo para buscar uma taça de um vinho considerado puro e de tão seleta safra de uvas que era oferecido naquele lugar sagrada. Debalde retornou pressurosa, a tempo de saciar a sede de Jesus. Ele recusou tomar do saboroso líquido.

            Sem saber o que fazer, quedou-se em convulsivo pranto ao pé da Cruz. Sentia-se incapaz de atender ao último pedido que lhe dirigia seu amado Jesus.

            Mais uma vez o Senhor lhe pedia: “Tenho sede”.

            E como numa inspiração sobrenatural, Madalena sentiu-se tocada pela graça e com as mãos concavadas, recolheu suas lágrimas e as ofereceu ao seu Redentor.

            Tinha sede, Nosso Senhor, das lágrimas daquela mulher; ainda tem sede, Nosso Senhor, de nosso arrependimento.

            Eis, caríssimos irmãos, neste passo o fruto da conversão: a misericórdia, o amor. Diz-nos a bem-aventurada Teresa de Calcutá que “’Tenho sede’ é uma palavra muito mais profunda do que se Jesus tivesse simplesmente dito ‘Amo-vos’”. Foi seu último pedido à humanidade pecadora antes de se entregar definitivamente ao Pai: “Tenho sede de vosso amor”.

            (…)

            “Tudo está consumado” ( Jo 19,30).

“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46)

Deixam-nos, suas últimas palavras de abandono à vontade do Pai, o exemplo da perseverança final em tudo, pois ele perseverou até à morte. E se isso o fez, foi tão somente por amor, sob a influência do sentimento da Trindade em que as aspirações são comuns. E com São Bernardo aprendemos, ainda melhor, a lição do amor. Diz-nos o abade de Claraval: “A medida para amar a Deus é amá-lo sem medida”.

Sim, meu caros irmãos, pois Deus nos amou de tal modo que nos deu seu filho para remir os nossos pecados e assegurar-nos a bem-aventurança eterna.

(…)

“Tudo está consumado”.

Cessaram-se os trovões, não se ouve nenhum ruído estranho, revolto. Apenas a chuva ainda insiste em prantos pela morte de Deus.

Avança a hora nona. Daqui a pouco cai a noite. Já será o dia da Páscoa.

Para Maria Santíssima e aqueles amigos que ali estavam o tempo não mais importava. Queriam ficar naquele monte, altar sagrado, em adoração perene.

Mas não podiam. Tudo já estava consumado.

(…)

E aquele instante de adoração se interrompe com a chegada de José de Arimatéia e Nicodemos.

Era a manifestação que faltava, daqueles que acompanhavam o Senhor à distância, durante toda a sua vida pública, mas por respeito humano não se manifestavam. Eram figuras proeminentes entre os judeus.

José de Arimatéia fazia parte do Conselho que condenou Jesus, mesmo tendo concordado com aquele desfecho. “Ele não havia concordado com a decisão dos outros nem com os atos deles. Originário de Arimatéia, cidade da Judéia, esperava ele o Reino de Deus”, relata-nos São Lucas (Lc 23,51). Já Nicodemos era fariseu, príncipe dos judeus. Certa vez procurou o Mestre à noite, às escondidas, e Jesus o preparou para aquilo que vira: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15). Nicodemos estava convencido da divindade de Nosso Senhor.

E neste momento, em que os amigos de Jesus, quase todos, os seus seguidores se escondem na penumbra da covardia, esses dois homens não temem seus pares no Conselho infame que condenou o Senhor e vão até Pilatos reclamar o corpo do Divino Redentor.

(…)

Chegam os dois senhores ao monte Calvário, com as faixas, os lençóis e os ungüentos.

Aproximam-se de Maria e lhe pedem permissão para enterrar seu filho, nosso amado Jesus.

Diante da cruz são tomados por admiração e como o centurião exclamam no íntimo de seu coração: “Na verdade, este homem era um justo” (Lc 23,47).

(…)

Primeiro, retiram a TABULETA que não escarnecia os cristãos, nem afrontava os judeus. Era a simples revelação constatada, ainda que indeliberadamente, por Pilatos: “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”. Estas palavras era uma profissão de fé incontestável, por isso, os dois bons homens não se contiveram e certamente depuseram-lhe um ósculo de devoção. Cumpriam-se as palavras de Zacarias: “Naquele dia, procurarei exterminar todo o povo que vier contra Jerusalém. Suscitarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de boa vontade e de prece, e eles voltarão os seus olhos para mim. Farão lamentações sobre aquele que traspassaram, como se fosse um filho único; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito! Naquele dia haverá um grande luto em Jerusalém, como o luto de Adadremon no vale de Magedo. A terra inteira celebrará esse luto, família por família; a família da casa de Davi à parte, com suas mulheres separadamente” (Zc 12,9-12).

(…)

Agora, retiram com muito cuidado a COROA DE ESPINHOS que está escalpelando a fronte do Redentor.

Ah, os espinhos!

Os espinhos que menos simbolizam o pecado, mas muito as suas conseqüências. A terra “te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra” (Gen 3,18). Esta foi a sentença de Deus, após a traição de Adão. “Os perversos sofrem com os espinhos” (Pv 22,5). Os espinhos é conseqüência da desobediência, por isso Nosso Senhor os tinha em sua fronte, ele carregava nossas culpas até a morte. “Ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas” (Is 53,4-5). Jesus usou uma coroa de espinhos, para que pudéssemos merecer a coroa imperecível da glória, como nos assegura São Pedro em sua primeira carta (5,4), a coroa da vida (Tg 1,12), coroa da justiça (2Tm 4,8). “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2,10)

(…)

“Ó vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si es dolor sicut dolor meus” – “Ó vós todos os que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor semelhante à dor que me atormenta” (Lm 1, 12).

Eis o corpo desfigurado!

Aos poucos vai-se notando quão ferido está pregado à Cruz.

Ai, meu Redentor! Miserável sou, por ser causa de tantos tormentos com meus pecados, reabrindo-lhes as chagas que, misericordiosas, me lavam com o Seu sangue sacrossanto.

Eis o corpo desfigurado de meu Senhor!

Contemplemo-lo, cheio de opróbrios, vítima das mais cruéis violências, desde as blasfêmias contra um Deus até as mais torpes bofetadas, agressões morais e físicas que a soldadesca indecorosa, instigada pelos pérfidos judeus, lançaram contra nosso amantíssimo Senhor.

“Attendite et videte…”

Avança a hora…

A noite se aproxima…

É preciso que retirem depressa o corpo de Nosso Senhor da Cruz.

Com muito cuidado retiram o prego que prende a MÃO DIREITA do Divino Redentor ao madeiro.

Ó mão bendita, que abençoou as multidões!

Ó mão sacrossanta, que tocou nas feridas dos enfermos e as curou!

Ó mão benfazeja, que acenou o caminho a seguir!

Ó mão paterna, que apontou o erro para que não mais fosse cometido!

Ó mão fraterna, que a estendeu ao próximo!

Retirai, pois, esse agudo cravo, para que possa retribuir, com esse ato de misericórdia, tantos benefícios!

(…)

Retirai, também, ó bons homens, o crave que prende a MÃO ESQUERDA de Jesus à Cruz.

Permite-me, Senhor, que eu esteja ao menos à tua esquerda, contemplando essa mão com a qual te amparavas no cajado enquanto guiavas o Teu redil.

Permite-me, Senhor, venerar essa mão que, oculta de tua destra, também acariciava a tantos que em Ti buscavam consolo.

Permite-me, Senhor, oscular essa mão chagada para que minha palavra jamais seja confundida ou causa de escândalo e sirva, tão somente, para cantar as Tuas glórias.

            (…)

            Retirai, por fim, o cravo que prende os PÉS de Nosso Senhor.

            Retirai-o com cuidado, para que nossa aspereza não fira ainda mais o corpo já inerte de Jesus Cristo, machucado terrivelmente pela violência daqueles que não aceitam o seu Reino.

“Rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés” (Sl 21,17).

Cães numerosos rodeiam o Calvário até nossos dias.

Cães de uma moral corrompida…

Cães de uma conduta infame, que se debruçam sobre suas misérias, ocultando-as, e obstam como podem o projeto de salvação para o qual devemos todos cooperar.

Desgraçados, aqueles que preferem mais as trevas à Luz. Não querem que estes braços voltem a abençoar, não permitirão que estes pés pisem novamente o pó dos caminhos humanos, levando a Boa Nova da paz e da esperança aos pobres e excluídos (Is 52,7). Preferem que Deus continue encerrado e controlado dentro de seus templos suntuosos, rejeitando o templo vivo somos cada um de nós, que é o Corpo Místico de Cristo (1Cor 6,19), pois pretendem continuar usando-o, manipulando-o, violentando-o, e massacrando-o a seu bel prazer.

(…)

Levai agora, José de Arimatéia e Nicodemos, o corpo sacrossanto de Jesus até Sua Mãe.

Ela o toma nos braços.

Maria que embalou o corpo frágil do Menino Jesus, antes de recliná-lo no presépio, agora o tem, frágil, maltratado, desfigurado, em seus braços antes de entregá-lo à sepultura.

“Dolores inferni circumdederunt me” – “Dores de inferno me cercaram” (Sl 17,6).

Relata-nos o célebre padre Antônio Vieira que “foram tão excessivos os tormentos da Virgem na Paixão de seu Filho, que diz S. Bernardo que, se se repartissem por todas as criaturas viventes, bastariam a tirar a vida a todas. Mais. Era tão grande o amor da Senhora, e o afeto temíssimo com que desejava não se apartar da presença e vista de seu Filho, que teria por grande benefício ou morrer, para que ele não morresse, como dizia Davi na morte de Absalão, e já que isto não pudesse ser, ao menos morrer juntamente com ele” (“Sermãos das Dores da Sacratíssima Virgem Maria”, 1642).

“Plorans ploravit in nocte…” – “Ela chora pela noite adentro, lágrimas lhe inundam as faces”

“Non est qui consoletur eam…” – “Ninguém mais a consola de quantos a amavam. Seus amigos todos a traíram, e se tornaram seus inimigos” (Lm 1,2).

(…)

“Nesta vida temem os homens a morte, e todos andam fugindo dela”, brada, ainda, das centúrias passadas o Crisóstomo Português.

Nesta vida temem os homens a morte, repito, porque temem ter que se apresentar ao Tribunal Divino e responder pelas atrocidades que tanto afligem o Coração Sagrado de Jesus.

(…)

Correi, infelizes. Correi pressurosos em busca do perdão de vossos pecados.

Celerados que renovam os flagelos a Nosso Senhor, emendai de vida enquanto há tempo, porque a “propriedade dos tormentos do inferno não só dura porque atormenta duramente, senão também porque, atormentando, endurece a quem atormenta, e matando, imortaliza para sempre matar. Nesta vida temem os homens a morte, e todos andam fugindo dela; no inferno, pelo contrário, todos desejam morrer, e a morte foge de todos” (VIEIRA op. cit.).

É o que vos espera, todos aqueles que abandonam sua Cruz no caminho e fogem do jugo de Nosso Senhor. Hipócritas, covardes, infelizes, preferem os regalos da vida mundana, da riqueza vil, das diversões, da sensualidade, dos prazeres anormais, da pederastia, de toda forma de incontinência, é o que vos espera: o inferno, pois “talis vita, finis ita”, diz o jargão latino – “Tal como se vive, se finda”. Vivestes longe de Deus, na sua ausência permanecerão após a morte. Desejarão, então, morrer, mas a morte fugirá de vós.

Diz-nos Santo Agostinho que foi “Deus quem se cansou, pois está nessa estrada há séculos, milênios… em busca da humanidade. Deus está em busca do homem. Onde Ele poderia parar, pousar, repousar? No poço de nosso coração, na alma de cada um de nós. Talvez cada um de nós já tenha vivido o essencial da experiência mística e espiritual: a descoberta de que não somos nós, mas Deus quem nos busca. Era Deus quem nos buscava esse tempo todo. É difícil deixar-se achar, deixar-se amar ‘tal como somos’. A estrada é longa até esse ponto da aceitação total.”

Iniciemos, caríssimos, agora, essa caminhada que nos conduzirá ao Pai.

Iniciemos, agora, essa caminhada, contritos, penitentes, com sinceros propósitos de emenda de vida, para que no dia em que formos chamados a juízo, possamos ouvir de nosso amantíssimo Jesus: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino que foi preparado para vós” (Mt 25,34).

Padre Wagner Augusto Portugal