Jesus cura a sogra de Pedro
Jesus cura a sogra de Pedro

Certa ocasião, ouvi de um teólogo-poeta que “a vida é um serviço de mercenário”, numa referência a Jo 7,1. Todos aqueles que trabalham nas lidas rurais acordam cansados e seguem mais cansados ainda para o trabalho, e retornam da longa jornada tão desanimados que não têm ânimo para dormir. Que o Senhor da Vida lh’os dê um pouco de paz e de concórdia e sossego…

Hoje a Liturgia nos convida a refletir sobre o poder sobre a doença. No Novo Testamento, não há uma explicação teórica para o sofrimento. Jesus surpreende convocando os homens para assumir o sofrimento, tratando-se de uma grande inovação. Por isso, a Primeira Leitura convida a nos aproximarmos do Mistério de Deus, aproximando-se do homem.

Em Jesus Cristo, tal como é apresentado pelo Evangelista Marcos, o mistério se revela, paulatinamente, sob o véu do “segredo” de Jesus, que marca este Evangelho. No início, Jesus assume o sofrimento, curando-o. Trata-se de um sinal. Por isso, no final, o Divino Mestre assumirá o sofrimento, sofrendo-o. Aí, sua compaixão se torna realmente universal. Supera de longe o que aparece no livro de Jó. Jesus nos mostra que Deus conhece o sofrimento do homem por dentro.

Na primeira leitura Jó(Jó 7,1-4.6-7) começa por tecer

considerações de caráter geral sobre a vida do homem na terra. O quadro apresentado é muito negativo. Para mostrar como a vida é dura, triste e dolorosa, ele utiliza três exemplos (vers. 1-2). O primeiro exemplo é o da vida do soldado, condenado a uma existência de luta, de risco e de sujeição. O segundo exemplo é o do escravo, condenado a uma vida de trabalho, de tortura e de maus tratos (só os breves momentos de descanso, à sombra, lhe dão algum alívio). O terceiro exemplo é o do trabalhador assalariado, condenado a trabalhar duramente de sol a sol (embora receba a recompensa de um salário). Estes são, na época, os três “estados” considerados mais penosos e miseráveis da vida do homem. Jó considera que a sua situação pessoal ainda é mais terrível. A dor que enche a sua existência fatiga mais do que o trabalho do assalariado; a sua infelicidade é mais dolorosa do que a vida de luta e de risco do soldado; o seu desespero é mais pesado do que a sujeição do escravo. O sofrimento
de Jó não lhe dá descanso, nem de noite nem de dia, e a sua desilusão não é atenuada (como no caso do trabalhador) com a esperança de uma recompensa (vers. 3-4. 6).Depois de traçar o quadro da sua triste existência, Jó dirige-se diretamente a Deus (vers. 7 e seguintes) e pede-lhe que “recorde” (isto é, que tenha em consideração) a triste situação do seu servo.

Ao longo do livro de Jó, multiplicam-se os desabafos magoados de um homem a quem o sofrimento tornou duro, exigente, amargo, agressivo, inconformado, revoltado até. No entanto, Deus nunca condena o seu amigo Jó pela violência das suas palavras e das suas exigências. Deus sabe que as vicissitudes da vida podem levar o homem ao desespero; por isso, entende o seu drama e não leva demasiado a sério as suas expressões menos próprias e menos respeitosas. A atitude compreensiva e tolerante de Deus convida-nos a uma atitude semelhante face aos lamentos de revolta e de

incompreensão vindos do coração daqueles irmãos que a vida maltratou.

Meus irmãos,

Jesus entra de cheio em sua vida pública. Passa da sinagoga à praça e às estradas. Assume a sua missão salvadora: devo pregar o Evangelho. Vários são os simbolismos da liturgia de hoje: o serviço, a compaixão, a misericórdia, a pregação, o combate do mal, a cura de diversas doenças, o cultivo da oração, a universalidade da salvação e a fidelidade ao compromisso. Poderíamos resumir a liturgia de hoje em três aspectos fundamentais na vida do cristão: a pregação da Palavra de Deus, a ajuda física e espiritual às pessoas e a oração.

Isso é a missão que deveremos desempenhar nesta semana e levar como ideal de nossa vida de cristãos, ou seja, de seguidores de Jesus Cristo. O entusiasmo é necessário, como é necessária para a fé a admiração. Do entusiasmo todo devemos partir para a vida pastoral, para o empenho missionário-evangelizador.

A caridade deve começar em casa. A cura da sogra de São Pedro não é certamente um milagre espetacular. São Marcos é bem sóbrio ao narrar o episódio, mas não deixa de subentendê-lo riquíssimo de sentido. Antes de mais nada, o relato mostra um Jesus amigo, carinhoso, afável. E nos passa hoje a lição de que a caridade começa em casa.

“Aproximando-se dela, tomou-a pela mão e a levantou da cama” (Mc 1,31). Marcos entende a doença e a morte como a manifestação do império do demônio e qualquer cura significa uma vitória sobre as forças do mal. A doença e a morte são vencidas pelo mesmo poder divino. Aquele que tem força para nos curar tem, também, força para nos ressuscitar.

A mulher do Evangelho (Mc 1,29-39), numa atualização para os nossos dias, pode ser considerada toda a assembléia. Ela, hoje, é todos nós. Enfraquecidos pelo pecado, cercados de maldade, abraçados pela morte, somos nós que cantamos com o salmista de hoje: “Curai-nos, Senhor, Deus da vida! ”. E o Senhor nos toma pela mão. A mão do Senhor nos cura no corpo e na alma. Jesus redentor é sinônimo de Jesus libertador. Jesus não liberta apenas o corpo ou apenas a alma. A criatura humana redimida e salva por Jesus é pessoa, isto é, corpo e alma inseparáveis.

Outro milagre é evidenciado: “E ela pôs-se a servi-los”. Na medida em que somos curados, libertados por Jesus, somos convidados e conclamados ao serviço da caridade, ao serviço do Reino. Quem nos ensina isso é o próprio Senhor: “Não vim para ser servido, mas para servir”. O serviço é a característica fundamental do seguimento de Cristo. Quem adere a Cristo encontra a cura de seus males, mas para pode servir aos irmãos e irmãs. O serviço fraterno, expressão de amor, construtor de comunidade é um serviço em benefício dos irmãos e irmãs.

Todos somos conclamados a misturar pregação, oração e serviço evangelizador. Na pessoa de Jesus personifica-se a misericórdia de Deus, consolando o povo, como descrevera Isaías e se expressa toda a bondade de Jesus, assumindo sobre si as dores e as enfermidades de todos. Importante notar como Jesus faz o bem, presta a todos o serviço da cura e não espera aplausos, agradecimentos e recompensas. Jesus não busca aplausos como os demais homens. Na vida prática não se separam as dimensões para dentro (deserto), para o alto (oração) e para fora (serviço).

Caros irmãos,

A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus, “começou a servir” os que estavam na casa, lembra-nos que do encontro libertador com Jesus deve resultar o compromisso com a libertação dos nossos irmãos. Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”, compromete-se com a transformação do mundo. Compromete-se a realizar, em favor dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes, aos marginalizados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos perseguidos, aos que sofrem.

Na multidão que se concentra à porta da “casa de Pedro” podemos ver essa humanidade que anseia pela sua libertação e que grita, dia a dia, a sua frustração pela guerra, pela violência, pela injustiça, pela miséria, pela exclusão, pela marginalização, pela falta de amor. A Igreja de Jesus Cristo (a “casa de Pedro”) tem uma proposta libertadora que vem do próprio Jesus e que deve ser oferecida a todos estes irmãos que vivem prisioneiros do sofrimento.

Prezados irmãos,

O anúncio do Evangelho transforma a vida das pessoas. Aqueles que são curados por Jesus também se tornam protagonistas da missão: ao serem tocados por ele, põem-se a serviço dos outros, como a sogra de Pedro. O Evangelista São Marcos também menciona aqueles que traziam as pessoas até Jesus: são seus colaboradores, agindo como intercessores dos necessitados. Ainda há aqueles que, como Simão e seus companheiros, deixam tudo para segui-lo, como discípulos seus. A oração e a ação missionária eram partes essenciais da missão de Jesus e dos discípulos. Também se dedicavam à atividade catequética nas sinagogas, onde continuamente se estudavam as Escrituras. Dessa forma, o Evangelho apresenta as várias atividades que faziam parte da missão da comunidade de Jesus e atesta como ele cuidava de todos os aspectos da vida das pessoas.

Irmãos caríssimos,

São Paulo (1Cor 9,16-19.22-23) nos ensina que nem sempre precisamos fazer uso de nossos direitos. Paulo anuncia o Evangelho de graça, para que ninguém possa suspeitar de motivos ambíguos. Por isso, somos convidados a fazer do irmão mais fraco na fé o irmão preferencial, relembrando que a gratuidade é a base do Evangelho e do seguimento de Cristo.

Quando alguém encontra Cristo e se torna discípulo, não pode ficar parado, mas tem de dar testemunho. A expressão “ai de mim se não anunciar o Evangelho” traduz esse imperativo que Paulo sente e que brota do seu amor a Cristo, ao Evangelho e aos homens. Na verdade, se Paulo evangelizasse por iniciativa própria, provavelmente buscaria a sua recompensa; mas uma vez que é o amor que o obriga a evangelizar, a recompensa não lhe parece importante (1Cor 9,17-18). O princípio fundamental que orienta a vida deste homem, apaixonado por Cristo e pelo Evangelho, não é a própria liberdade, a afirmação dos próprios direitos ou a defesa dos próprios interesses, mas o amor a Cristo e ao Evangelho. Por amor, ele renunciou aos seus direitos e fez-se “servo de todos” (1Cor 9,19); por amor, ele renunciou aos seus próprios interesses e perspectivas pessoais e identificou-se com os fracos, fez-se “tudo para todos” (1Cor 9,22-23). O que é fundamental, o que é decisivo, o que é absoluto na vida de Paulo é o amor. Evidentemente, sugere Paulo, deve ser esse o princípio fundamental que condiciona todas as opções e comportamentos dos cristãos.

Como discípulo missionário e com espírito de gratuidade, São Paulo se apresenta como servidor da Palavra. A partir do seu encontro com Jesus Cristo, anunciá-lo àqueles que não o conheciam se tornou um imperativo para Paulo. Ele renunciou a tudo para dedicar a vida, com toda a sua sabedoria, ao anúncio do Evangelho em uma cultura diferente da sua. O princípio que orientou toda a sua missão foi ver em cada pessoa um irmão e uma irmã, independentemente de raça, religião, gênero ou classe social. Deixando suas convicções pessoais de judeu, após sua conversão, São Paulo pôs toda sua vida em função do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo.

A expressão “ai de mim se não anunciar o Evangelho” traduz a atitude de quem descobriu Jesus Cristo e a sua proposta e sente a responsabilidade por passar essa proposta libertadora aos outros homens. Implica o dom de si, o esquecimento dos seus interesses e esquemas pessoais, para fazer da sua vida um dom a Cristo, ao Reino e aos outros irmãos. Que eco é que esta exigência encontra no nosso coração? O amor a Cristo e aos nossos irmãos sobrepõe-se aos nossos esquemas e programas pessoais e obriga-nos a sentirmo-nos comprometidos com o Evangelho e com o testemunho do Reino proposto por Jesus?

A alegria de encontrar-se com Jesus enche o coração do discípulo para anunciá-lo com a dedicação, o entusiasmo e a generosidade que tomaram conta do apóstolo Paulo. A dor dos que sofrem como Jó espera por uma resposta de acolhida solidária. Como nos exorta o Santo Padre o Papa Francisco, cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus a serviço da libertação dos pobres, daqueles que sofrem, para que estes possam ser plenamente acolhidos em nossas comunidades e na sociedade.

Evangelizar é um serviço precioso. Por isso, evangelizar é uma necessidade diante da força do mal. Derrotando o pecado e aderindo a Cristo, alcançamos a salvação. Essa é a mensagem de hoje: rezar, estar em Deus, com a ação dentro da nova evangelização pelo serviço pastoral. Assim seja!

Padre Wagner Augusto Portugal