Homilia As bem-aventuranças

Meus queridos Irmãos,

Vivemos neste domingo o encantamento da liturgia das bem-aventuranças. Os caminhos de Deus são completamente diferentes dos nossos. Os homens e mulheres sempre acham que o grande e o forte hão de vencer. Deus, na contra-mão dos homens, acha que não. Deus prefere trabalhar com um povo pequeno e humilhado, com aqueles que sempre estão fora do sistema dominante. Isto porque os poderosos são auto-suficientes e não querem entender o que Deus deseja. Deus atrapalha aos interesses dos poderosos. Com o pobre resto de Israel, depois das deportações, exílios e perseguições, Deus consegue mais do que com o povo próspero e rico que pactuava com os egípcios e os assírios, até eles os engolirem. Pois a situação de Deus situa-se num outro nível: concerne à retidão do coração, e, aí, o poder não tem força nem pode oprimir. Por isso, os pobres de Deus são felizes. Essa é a mensagem da Primeira Leitura de hoje do Livro de Sofonias. Deus não se deixa pressionar pelo poder do mais forte. Se os outros não o fazem, ele cuida dos pobres, dos humildes e dos fracos e lhes faz justiça, conforme canta o Salmo Responsorial.

O profeta Sofonias pregou em Jerusalém na época do rei Josias (Josias reinou entre 639 e 609 a.C.). Os comentadores costumam situar a profecia de Sofonias durante o tempo de menoridade de Josias (que subiu ao trono aos oito anos); durante esse tempo, foi um Conselho real que presidiu aos destinos de Judá. Trata-se de uma época difícil para o Povo de Deus. Judá está – há cerca de um século – submetida aos assírios (desde que Acaz pediu ajuda a Tiglat-Pileser III contra Damasco e a Samaria, no ano 734 a.C.); a influência estrangeira sente-se em todos os degraus da vida nacional e a nação sofre as consequências da invasão de costumes estranhos e de práticas pagãs. Por outro lado, o país acaba de sair do reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), que reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares a Baal, ofereceu o próprio filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem de Astarte (cf. 2 Re 21,3-9). Aos pecados contra Jahwéh e contra a aliança, somam-se as injustiças que, todos os dias, atingem os mais pobres e desprotegidos. Os príncipes e ministros abusam da sua autoridade e cometem arbitrariedades, os juízes são corruptos e os comerciantes especulam com a miséria. Sofonias está consciente de que Jahwéh não pode continuar a pactuar com o pecado do seu Povo; vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra. Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiveram fiéis à aliança. O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar o castigo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação.

A primeira leitura é um forte apelo à conversão (cf. Sf 2,3). Para Sofonias, “conversão” significa, objetivamente, justiça e humildade. Os “humildes”, no contexto de Sofonias, são aqueles se entregam confiadamente nas mãos de Deus, que seguem os caminhos de Deus, que aceitam as propostas de Deus e que não se colocam contra Ele; são, também, aqueles que praticam a justiça para com os irmãos, que respeitam os direitos dos mais débeis, que não cometem arbitrariedades. Equivalem aos “pobres” das bem-aventuranças: não são uma categoria sociológica, mas aqueles que estão numa certa atitude espiritual de abertura a Deus e aos irmãos. No lado oposto estão os orgulhosos e autossuficientes, que ignoram as propostas de Deus, exploram, são injustos, corruptos e arbitrários. Só uma verdadeira conversão à humildade permitirá encontrar proteção no “dia da ira do Senhor” que se aproxima e que vai atingir os orgulhosos, os prepotentes e os injustos. Em seguida, Sofonias apresenta o resultado do “dia da ira do Senhor”: o surgimento do “resto de Israel” (cf. Sf 3,12-13). Os orgulhosos, arrogantes e prepotentes serão banidos do meio do Povo de Deus (cf. Sf 3,11); ficará um “resto” humilde e pobre”, que se entregará nas mãos do Senhor, não cometerá iniquidades nem dirá mentiras e será uma espécie de viveiro de reflorescimento da nação. A partir daqui ser “pobre” não é uma categoria sociológica, mas uma atitude espiritual de quem tem o coração aberto às propostas de Deus e é justo na relação com os outros. Na boa tradição bíblica (que está presente neste texto), os pobres são, portanto, pessoas pacíficas, humildes, piedosas, simples, que confiam em Deus, que obedecem às suas propostas e que são justos e solidários com os irmãos.

O Deus que Se revela na palavra e na interpelação de Sofonias é o Deus que não pactua com os orgulhosos e prepotentes que dominam o mundo e que pretendem moldar a história com a sua lógica. A primeira indicação que a Palavra de Deus hoje nos fornece é esta: o nosso Deus não está onde se cultiva a violência e a lei da força, nem apoia a política dos dominadores do mundo – mesmo que eles pretendam defender os valores de Deus e da civilização cristã. Os valores de Deus não se defendem com uma lógica de imposição, de violência, de apelo à força. Atenção à história e aos acontecimentos: sempre que alguém se apresenta em nome de Deus a impor ao mundo um
a determinada lógica, temos de desconfiar; Deus nunca esteve desse lado e esses nunca foram os métodos de Deus. Sofonias garante: para os prepotentes e orgulhosos, chegará o dia da ira de Deus; e, nesse dia, serão os humildes e os pobres que se sentarão à mesa com Deus.

O apelo à conversão significa objetivamente, na perspectiva de Sofonias, a renúncia ao orgulho, à prepotência, ao egoísmo e um regresso à comunhão com Deus e com os irmãos.

Estimados Irmãos,

O Evangelho de hoje nos aponta como ideal de santidade a ser vivida por todos e por cada um. Um ideal que Jesus viveu e quer que as criaturas humanas alcancem e vivam. As bem-aventuranças são a porta estreita(Cf Mt 7,13-14) por onde só passa o “pequeno rebanho”(Cf. Lc 12,32 e 13,24).

As bem-aventuranças traçam um caminho na contramão do que estamos acostumados a viver – o ter, o poder e o fazer. As bem-aventuranças não corrigem desvios; corrigem o rumo inteiro. As bem-aventuranças não pregam uma terapia imediata, mas parâmetros eternos. As bem-aventuranças não ensinam um bem-estar individual, mas a nossa felicidade como um todo inserido na convivência de todas as coisas criadas e na comunhão com o próprio Deus, origem e destino de tudo.

Assim é necessário, ao ler o Sermão da Montanha, contemplar o resumo dos ensinamentos de Jesus. Como está nosso relacionamento com Jesus diante destes ensinamentos e metas de vida? Quem vive as bem-aventuranças compreendeu e compreende a missão de Jesus no mundo e o que Ele quer de cada um de nós. As bem-aventuranças contém a doutrina do Reino, as qualidades de quem deixou de ser o homem carnal, o “homem velho”, e passou a ser o homem espiritual, renascido pelo Espírito Santo.

O fato de nosso Evangelista colocar o anúncio das Bem-Aventuranças do alto da montanha quer demonstrar que elas têm o caráter de autoridade para a vida do povo fiel. A montanha significa a estabilidade e a eternidade, o que significa que estes ensinamentos são eternos e estáveis para a vivência do povo de Deus.

No desapego de tudo, a certeza dos bens que não passam: os bens eternos! Bem-aventurança que quer significar felicidade, bênção e paz. Bem-aventuranças que significa o realizado. Uma pessoa se sente realizada quando alcançou tudo o que queria. E é exatamente isto que expressam as bem-aventuranças. Na nova família de Deus, é realizado quem é pobre de espírito, humilde, manso, misericordioso, pacífico e pacificador, puro de coração e de intenções, e sabe suportar as contrariedades. Evidentemente, estamos numa outra escala de valores, que difere profundamente das escalas de valores humanos, que é centrada na felicidade efêmera, barata e passageira, de certa forma, egocêntrica, que procura a paz à custa dos outros e confunde bênção com ganho.

O novo povo de Deus é chamado a viver a novidade do anúncio do Reino: fazer-se pobre com Cristo para viver a felicidade eterna na vida em Deus. Felicidade que é desapego, confiança inabalável na vontade do Pai.

O Evangelho falará sempre no desapego dos bens materiais, ou seja, a pobreza em espírito, é uma das condições fundamentais para se entrar no Reino de Deus, isto é, na nova família de Deus. Daí a primeira bem-aventurança se referir à pobreza. Não à pobreza como falta ou miséria. Mas, a pobreza como desapego de coração.

A piedade e a fidelidade são bem-aventuranças especiais. Mas elas só poderão ser vividas se o homem tiver um coração desapegado, de pobre e humilde. Acentuando os contrários, Jesus ensina que o desapego absoluto é o ideal a ser alcançado. Ele mesmo é o modelo perfeito e acabo de desapego. Entre os que conseguiram compreender o significado da pobreza e a escolheram como estrada para penetrar no Reino de Deus, estão os irmãos que nos precederam fazendo do itinerário espiritual a pobreza como irmã e companheira.

Caros irmãos,

Jesus proclama: “felizes os pobres em espírito”; o mundo diz: “felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e sabeis usá-lo para comprar influências, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que faz andar o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes”. Quem é, realmente, feliz?

Jesus anuncia: “felizes os mansos”; o mundo diz: “felizes vós os que respondeis na mesma moeda quando vos provocam, que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é eficaz para lidar com a violência e a injustiça”. Quem tem razão?

Jesus relembra: “felizes os que choram”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes motivos para chorar, porque a vossa vida é sempre uma festa, porque vos moveis nas altas esferas da sociedade e tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com telefone e ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro”. Onde está a verdadeira felicidade?

Jesus é enfático ao falar: “felizes os que têm ânsia de cumprir a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que não dependeis de preconceitos ultrapassados e não acreditais num deus que vos diz o que deveis e não deveis fazer, porque assim sois mais livres”. Onde está a verdadeira liberdade, que enche de felicidade o coração?

Jesus não se cansa de relembrar: “felizes os que tratam os outros com misericórdia”; o mundo diz: “felizes vós quando desempenhais o vosso papel sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo”. Qual é o verdadeiro fundamento de uma sociedade mais justa e mais fraterna?

Jesus nos toca falando: “felizes os sinceros de coração”; o mundo diz: “felizes vós quando sabeis mentir e fingir para levar a água ao vosso moinho, pois a verdade e a sinceridade destroem muitas carreiras e esperanças de sucesso”. Onde está a verdade?

Jesus dá o exemplo e ensina que: “felizes os que procuram construir a paz entre os homens”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso”. O que é que torna o mundo melhor: a paz ou a guerra?

Jesus nos conforta relembrando que: “felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que já entendestes como é mais seguro e mais fácil fazer o jogo dos poderosos e estar sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira”. O que é que nos eleva à vida plena?

Estimados amigos,

Sejamos, pois, homens misericordiosos e construtores da paz, condenando a ganância e do apego demasiado. O apegado ao poder não reparte com ninguém. Ter misericórdia é ter o coração aberto aos miseráveis, àqueles que nada podem: é repartir com eles o que se tem e o que se é. É nessa partilha que está a fidelidade. Como o Cristo – encarnação da misericórdia – que repartiu conosco tudo, inclusive sua filiação e sua eternidade.

O homem sempre quis a auto-suficiência. Mas este é incapaz de consolar, de fazer justiça e de ser misericordioso. Ao contrário, Jesus quis ser dependente da vontade de Deus e fazer sempre a sua vontade, construindo no nosso meio a sua Justiça, construção da paz duradoura.

Meus amigos,

A Segunda Leitura da primeira carta aos Coríntios confirma o ensinamento da Primeira Leitura e do evangelho, mostrando que Deus não escolhe o que é forte, neste mundo, mas o que é fraco, como, de fato, muitos dos primeiros cristãos eram.  Isso porque ninguém deve gloriar-se de Deus; se alguém quiser gloriar-se se torne pequeno, para se gloriar naquilo que Deus realiza, conforme a sua justiça.

Lembramos que vimos, na passada semana, que um dos graves problemas da comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que acontecia nas várias escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes do cristianismo primitivo como mestres de uma doutrina e aderiam a essas figuras, esperando encontrar nelas uma proposta filosófica credível, que os conduzisse à plenitude da sabedoria e da realização humana. É de crer que os vários adeptos desses vários mestres se confrontassem na comunidade, procurando demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ao saber isto, São Paulo ficou muito alarmado: esta perspectiva punha em causa o essencial da fé. São Paulo vai esforçar-se, então, por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico. Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação, não pela lógica do poder ou pela elegância das palavras, mas através do dom da vida. O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É aí e em mais nenhum lado que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

É verdade, considera São Paulo, que é difícil encontrar – do ponto de vista do raciocínio humano – num pobre galileu condenado a uma morte infamante (“escândalo para os judeus e loucura para os gentios” – 1 Cor 1,23) uma proposta credível de salvação. Mas a lógica de Deus não é exatamente igual à lógica dos homens. “O que é loucura de Deus é mais sábio que os homens; e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1,25). Como exemplo da lógica de Deus, Paulo apresenta o caso da própria comunidade cristã de Corinto: entre os coríntios não abundavam os ricos, nem os poderosos, nem os de boas famílias, nem os intelectuais, nem os aristocratas; ao contrário, a maioria dos membros da comunidade eram escravos, trabalhadores, gente simples e pobre. Apesar disso, Deus escolheu-os e chamou-os; e a vida de Deus manifestou-se nessa comunidade de desclassificados. Para a consecução dos seus projetos, os homens escolhem normalmente os mais ricos, os mais fortes, os mais bem preparados intelectualmente, os que provêm de boas famílias, os que asseguram maiores hipóteses de êxito do ponto de vista humano. Mas Deus escolhe os pobres, os débeis, aqueles que aos olhos do mundo são ignorados ou desprezados e, através deles, manifesta o seu poder e intervém no mundo. Portanto, se esta é a lógica de Deus (como ficou provado pelo exemplo), não surpreende que o poder salvador de Deus se tenha manifestado na cruz de Cristo. Os coríntios são convidados a não colocar a sua esperança e a sua segurança em pessoas (por muito brilhantes e cheias de qualidades humanas que elas sejam) ou em esquemas humanos de sabedoria (por muito sedutores e fascinantes que eles possam parecer): a sabedoria humana é incapaz, por si só, de salvar; e, ao produzir orgulho e autossuficiência, leva o homem a prescindir de Deus e a resvalar por caminhos que conduzem à morte e à desgraça. Em contrapartida, os coríntios são convidados a colocar a sua esperança e segurança em Jesus Cristo, que na cruz deu a vida por amor: é na “loucura da cruz” – isto é, na vida dada até às últimas consequências, que se manifesta a radicalidade do amor de Deus, a profundidade do seu desejo de ofertar ao homem a salvação. Para Paulo, a cruz manifesta a “sabedoria de Deus”; e é essa sabedoria que deve atrair o olhar e apaixonar o coração dos coríntios.

A teologia da Segunda Leitura apresentada por São Paulo nos diz que o Deus em quem acreditamos não é o Deus que só escolhe os ricos, os poderosos, os influentes, os nobres, para realizar a sua obra no mundo; mas que o nosso Deus é o Deus que não faz acepção de pessoas e que, quase sempre, se serve da fraqueza, da fragilidade, da finitude para levar avante o seu projeto de salvação e libertação.

Que sejamos todos, neste dia, abertos a pobreza, a consolação, a mansidão, aos famintos, aos injustiçados, para que a misericórdia, a pureza, a paz e a justiça reinem neste mundo para vivermos com Cristo a paz duradoura, amém!

Homilia porPadre Wagner Augusto Portugal