amar a Deus e amar ao próximo

A liturgia do 31º Domingo do Tempo Comum ressalta que, para Jesus, o mandamento fundamental, base de todos os mandamentos, é o amor — que possui duas formas de expressão: amor a Deus e amor aos irmãos e irmãs. Só esse amor consegue captar o sentido da vida como o Pai amoroso a concebeu. Amar a Deus e aos Seus filhos e filhas não são meros sentimentos. É coisa muito prática. Implica amar os irmãos e irmãs “com ações e em verdade”, como nos ensina São João (1Jo 3,18).

O tema central da liturgia deste domingo é o primado do amor sobre todos os mandamentos, compreendido em suas duas vertentes inseparáveis: amor a Deus e ao próximo, respectivamente, como se fossem as duas faces da mesma moeda. Isso é evidenciado, sobretudo, pelo Evangelho, no qual Jesus responde ao questionamento de um mestre da Lei sobre o primeiro dos mandamentos, afirmando que o primeiro é amar intensamente a Deus e o segundo é amar o próximo, sendo ambos inseparáveis.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura – Dt 6,2-6 – fala do primeiro mandamento da Lei de Deus: o amor de Deus. O livro de Deuteronômio é mais do que uma coleção de leis, compilada 5 séculos depois do Êxodo. O livro é uma teologia. Quer recordar ao povo que ele é propriedade de Deus. O povo, sedentarizado, está mais inclinado a favor dos “deuses da Terra”, estimados a produzir a fecundidade, do que a favor de Deus, que, uma vez, o tirou do Egito… Moisés, representado como um profeta, grita aos ouvidos do povo, como se fosse surdo: “Ouve, Israel: Javé é nosso único Deus!”. A frase tornou-se oração cotidiana dos judeus é resposta de Jesus à pergunta do primeiro mandamento.

Segundo

a teologia deuteronomista, a fidelidade de Israel é condição fundamental para o cumprimento das principais promessas de Deus: bênção, descendência e terra. Por isso, o futuro exílio, que significa a perda da terra, será interpretado como consequência da infidelidade. O trecho lido nesta liturgia pertence ao núcleo fundamental do segundo discurso de Moisés (Dt 4,44-28,68), que, por sinal, é o mais importante dos três.

Dizer que Deus é único, é dizer que Ele é o único e o verdadeiro caminho para a vida em plenitude. Contudo, no nosso orgulho, convencemo-nos, por vezes, que a nossa realização e a nossa felicidade estão na concretização dos nossos projetos pessoais, dos nossos desejos egoístas, das nossas inclinações e paixões, à margem de Deus e das suas propostas. A isso, chama-se autossuficiência. Prescindir de Deus e das suas indicações leva-nos, invariavelmente, a trilhar caminhos de egoísmo, de injustiça, de exploração, de sofrimento, de morte. Precisamos interiorizar esta realidade: por nós próprios, sem Deus, contando apenas com as nossas frágeis forças, não conseguiremos encontrar o caminho da realização, da felicidade, da vida em plenitude.

A

perícope nos convida a amar a Deus com um amor que implique a totalidade da vida do homem; ou, por outras palavras, convida o batizado a viver no “temor do Senhor”. O nosso amor ao Senhor deve, sobretudo, manifestar-se em gestos concretos que manifestem a nossa obediência incondicional aos seus planos, a nossa entrega total nas suas mãos, a nossa aceitação dos seus mandamentos e preceitos.

Prezados irmãos,

A Segunda Leitura – Hb 7,23-28 – tem como tema: Cristo, perfeição e plenitude do sacerdócio. O sacerdócio de Cristo supera o sacerdócio levítico – do Templo – por ser Jesus sacerdote, não na ordem de Abraão, mas de Melquisedec (Hb 5,6), que é anterior e, além disso, de origem “misteriosa”. Jesus é sacerdote não por geração, mas pela palavra de Deus, que é eterna, como é o sacerdócio de Jesus. Por ele, Deus criou a ordem salvífica definitiva: doravante, ele é o único mediador. A perícope de hoje é uma recapitulação da obra salvífica de Cristo, o sumo sacerdote completamente adequado ao plano de Deus e às necessidades dos homens.

A

leitura de hoje tem como tema central o sacerdócio de Jesus Cristo. Como já foi recordado em outras ocasiões, os destinatários da carta, cristãos de origem predominantemente judaica, tinham dificuldade de viver a fé desvinculada do templo de Jerusalém e do seu sacerdócio.  Por isso, o autor insiste tanto em apresentar Jesus como sumo sacerdote superior aos sacerdotes da Antiga Aliança. O texto lido neste domingo reflete essa situação. Por meio de antíteses, o autor apresenta a superioridade do sacerdócio de Cristo em relação aos sacerdotes da Antiga Aliança ou do templo.

Na Carta aos Hebreus, Jesus Cristo é o sacerdote por excelência, que o Pai enviou ao mundo com a missão de convidar todos os homens a integrar a comunidade do povo sacerdotal. Ora, Jesus Cristo cumpriu integralmente a missão que o Pai lhe confiou. Desde o primeiro instante da sua encarnação, Ele fez da sua vida uma escuta atenta do Pai e uma entrega total aos homens. Na obediência e na entrega de Cristo – que foi até ao dom total da vida, na cruz – ficou bem expresso o seu amor ao Pai. Cristo, com o exemplo da sua vida, diz-nos qual a melhor forma de expressarmos o nosso amor a Deus.

É na escuta atenta dos seus projetos e dos seus desafios, no acolhimento da sua Palavra e das suas propostas, na obediência aos seus mandamentos, no cumprimento incondicional da sua vontade, no dom da vida aos irmãos por amor, no testemunho corajoso dos seus valores e projetos, que nós expressamos, de forma privilegiada, esse amor a Deus que nos enche o coração.

O autor da Carta aos Hebreus insiste, com frequência, que o verdadeiro sacrifício, o sacrifício que Deus aprecia, o sacrifício que gera dinamismos de vida e de salvação, é aquele que Cristo ofereceu ao Pai: a sua própria vida, posta ao serviço do projeto de Deus e feita amor e serviço para os homens. Nós, os batizados, sempre preocupados em agradar a Deus e em render-Lhe o culto que Ele merece, esquecemos, por vezes, o óbvio: mais do que ritos majestosos, manifestações públicas de fé, solenes celebrações, Deus aprecia o dom de nós mesmos. O culto que Ele nos pede, o sacrifício que Ele aprecia e que há de gerar vida nova para nós e para os que caminham ao nosso lado, é a obediência aos seus projetos e o amor aos irmãos.

Cristo é, efetivamente, o sumo-sacerdote que está junto do Pai e que intercede continuamente por nós, como não se cansa de repetir o autor da Carta aos Hebreus. A consciência desse fato deve encher o nosso coração de paz, de esperança e de confiança: se Cristo intercede por nós, podemos encarar a vida de forma serena, com a consciência de que as nossas debilidades e fragilidades nunca nos afastarão, de forma definitiva, da comunhão com Deus e da vida eterna.

Caros irmãos,

No Evangelho – Mc 12,28b-34 – temos que o primeiro mandamento, o amor, e o segundo igual a ele. Marcos coloca em cena um homem que parece interrogar Jesus com uma intenção reta, embora limitada: um escriba que quer verificar que mandamento Jesus considera como primeiro. Jesus responde com a primeira frase do “Chemá Israel” (“Ouve Israel” – cf. Primeira Leitura): o amor de Deus. Todo judeu sabia isso: era a sua oração cotidiana. Mas entre saber e viver também o amor ao próximo. O escriba entende, e chama Jesus de “Mestre”.

Jerusalém é o lugar onde se deve manifestar o Messias, restaurando a Lei e a justiça em Israel. No centro dos ensinamentos de Jesus em Jerusalém, dirigidos a diversos setores do judaísmo, está o ensinamento do primeiro mandamento. Como nas discussões anteriores, também aqui o ponto de partida é uma pergunta de um teólogo. A resposta de Jesus é, inicialmente, apenas um reflexo da teologia tradicional: responde ciando as primeiras palavras do “Chemá Israel!”(Dt 6) que introduz o resumo deuteronomístico da Lei, fundamental para todo judaísmo pós-exílico: a adoração suprema e exclusiva de Deus. Jesus acrescenta imediatamente um segundo mandamento, colocando-o, junto com o primeiro, acima de todos os outros: o amor ao próximo (Lv 19,18). E Jesus se dá por muito satisfeito também, quando o teólogo repete suas palavras, mostrando-se verdadeiro discípulo, e diz: “Tu não estás longe do Reino de Deus”.

São Marcos ressalta que Jerusalém não era tão ruim assim. De certo, Jesus teve que reduzir ao silêncio as facções adversárias: os fariseus com os herodianos (Mc 12,13-17), os saduceus (Mc 12,18-27). Mas mesmo entre estes teólogos encontrou um discípulo (Mc 12,34). E os outros não mais ousavam interrogá-lo. Universalismo é uma atitude que recebe matizes diferentes conforme o ponto de partida.

Fora do Evangelho de hoje a tradição do supremo mandamento de Jesus só fala no amor ao próximo (Rm 13,8-10; Gl 5,14; Tg 2,8; Jo 13,34). O que São Marcos hoje coloca em seu Evangelho é a veneração a Deus. Infelizmente numa sociedade secularizada como a nossa reina o pressuposto de que, para “amar ao próximo”, não se precisa recorrer a Deus e à religião. O humanismo sem Deus parece-me muito mais frequente em nossa sociedade do que o “amar a Deus e ao próximo”. E será que este humanismo sem Deus está errado? Acho-o impossível, pois sempre há algum Deus, alguma instância suprema. Se não for o Transcendente, Deus que está acima de tudo, nos colocamos a nós mesmos em seu lugar. Então, pretendo amar o co-homem sem recorrer a Deus, terminamos amando a nós mesmos, nossos projetos, ideologias e utopias, ou meramente nossos escusos interesses pessoais, sob o pretexto de humanismo. Ser bonzinho para com o próximo, quando isso vem ao encontro de nossos interesses, é fácil. Difícil é colocar nossa bondade para com os homens sob o critério de Deus, que pode ser diferente de nossa maneira inevitavelmente egocêntrica de ver.

Caros irmãos,

O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total dos seus projetos para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo.

O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida.

O centro da liturgia de hoje: é fundamental que tenhamos consciência de que estas duas dimensões do amor – o amor a Deus e o amor aos irmãos – não se excluem nem estão em confronto uma com a outra. Amar a Deus é cumprir a sua vontade e os seus projetos; ora, a vontade de Deus é que façamos da nossa vida um dom de amor, de serviço, de entrega aos irmãos – a todos os irmãos com quem nos cruzamos nos caminhos da vida. Não se trata entre optar por rezar ou por trabalhar em favor dos outros, entre estar na igreja ou estar a ajudar os pobres; trata-se é de manter, dia a dia, um diálogo contínuo com Deus, a fim de percebermos os desafios que Deus tem para nós e de lhes respondermos convenientemente, no dom de nós próprios aos irmãos.

Como é que vivemos a nossa caminhada religiosa? Qual é, para nós, o elemento fundamental da nossa experiência de fé? Por vezes não estaremos a dar demasiada importância a elementos que não têm grande significado (as prescrições do culto e do calendário, os ritos exteriores, as regras do liturgicamente correto, as doações de dinheiro para as festas do santo padroeiro, as leis canônicas, as questões disciplinares, esquecendo o essencial, negligenciando o mandamento maior)?

Neste domingo devemos deixar claro a inseparabilidade entre o amor a Deus e o amor ao próximo, como elementos essenciais da fé cristã. O sacerdócio de Jesus Cristo, com seu amor incondicional ao Pai e à humanidade, é o genuíno paradigma do agir cristão no mundo. Ao celebrar o Dia Nacional da Juventude, rezemos pelos jovens das nossas comunidades, motivando-os a se organizar em grupos e pastorais, enaltecendo a força e o potencial transformador próprios da juventude, o grande futuro da Igreja.

Padre Wagner Augusto Portugal.

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