tome sua cruz

“Tende compaixão de mim, Senhor, clamo por vós o dia inteiro; Senhor, sois bom e clemente, cheio de misericórdia para aqueles que vos invocam”(cf. Sl. 85,3.5).

Refletimos neste domingo o chamado para ser profeta. Nos dias de hoje muitos querem ser profeta. Mas ser profeta não é fácil, e tampouco vivenciar o seguimento do profeta. A primeira leitura tirada do profeta Jeremias(cf. Jr 20,7-9) nos fala da atitude e da caminhada que deve pautar a vida daqueles que são enviados por Deus para alertar ao povo da necessidade de retornar aos caminhos da salvação. A vida do profeta deve ser uma vida de sedução.

Na linguagem de hoje, pós-moderna, Jeremias diria que “entrou numa fria”. Jeremias, ao falar da sua vida, diz que desde o início de seu ministério profético tudo foi um tanto “recalcitrante”. Até quis fazer um momento de greve, mas a voz de Deus ecoou mais forte como um fogo abrasador no seu peito, não conseguindo fugir da vontade do Senhor. Aqui reside a novidade da mensagem do profeta. Quando ele tem uma mensagem desagradável e sempre de novo deve incomodar e ferir os ouvidos, Deus não o deixa em paz.

O amor por Deus e pela sua Palavra está tão vivo no coração do profeta que é inútil resistir: “procurava contê-lo, mas não podia” (Jr 20, 9). A Palavra de Deus é um fogo devorador, que consome o coração do profeta e que não o deixa demitir-se da missão e esconder-se numa vida cômoda e instalada. Ao profeta resta, portanto, continuar ao serviço da Palavra, enfrentando o seu destino de solidão e de sofrimento, na esperança de, ao longo da caminhada, reencontrar esse amor de Deus que um dia o seduziu e ao qual o profeta nunca saberá renunciar.

A história de Jeremias é, em termos gerais, a história de todos aqueles que Deus chama a ser profetas. Ser sinal de Deus e dos seus valores significa enfrentar a injustiça, a opressão, o pecado e, portanto, pôr em causa os interesses egoístas e os esquemas sobre os quais, tantas vezes, se constrói a história do mundo; por isso, o “caminho profético” é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco. Deus nunca prometeu a nenhum profeta um caminho fácil de glórias e de triunfos humanos.

No batismo, fomos ungidos como “profetas”, à imagem de Cristo. Neste texto –  e, em geral, em toda a vida de Jeremias – impressiona-nos o espaço fundamental que a Palavra de Deus ocupa na vida do profeta. Ela tomou conta do seu coração e dominou-o totalmente. É uma “paixão” que – apesar de ter trazido ao profeta uma história pessoal de sofrimento e de risco – não pode ser calada e sufocada.

O lamento de Jeremias não deve escandalizar-nos; mas deve ser entendido no contexto de uma situação trágica de sofrimento intolerável. É o grito de um coração humano dolorido, marcado pela incompreensão dos que o rodeiam, pelo abandono, pela solidão e pelo aparente fracasso da missão a que devotou a sua vida. É o mesmo lamento de tantos homens e mulheres, em tantos momentos dramáticos de solidão, de sofrimento, de incompreensão, de dor. É a expressão da nossa finitude, da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa humanidade. É precisamente nessas situações que nos dirigimos a Deus (às vezes até com expressões menos próprias) e Lhe dizemos a falta que Ele nos faz e o quanto a nossa vida é vazia e sem sentido se Ele não nos estender a sua mão. Esses momentos não são, propriamente, momentos negativos da nossa caminhada de fé e de relação com Deus; mas são momentos (talvez necessários) de crescimento e de amadurecimento, em que experimentamos a nossa fragilidade e descobrimos que, sem Deus e sem o seu amor, a nossa vida não faz sentido.

Meus irmãos,

 Pedro deu aquele testemunho sobre o Senhorio de Nosso Senhor Jesus Cristo, como o Filho do Deus vivo. Tratava-se de uma visão petrina de um Messias triunfante e dominador e não do Servo Sofredor, do irmão que veio não para ser servido, mas para servir.

Jesus hoje anuncia a paixão, a morte e a ressurreição, fato que os discípulos não imaginavam, pois se Jesus era o Filho de Deus não poderia morrer. Para eles a morte ficava como uma demonstração de que Jesus era igual aos outros profetas.  Só que para os discípulos seria difícil compreender que a Morte violenta estava nos planos de Deus e que a ressurreição ao terceiro dia, inaugurando uma nova era de redenção, só seria aceita depois de contemplada a sua cabal realização.

O Evangelho coloca que o cristão não é melhor do que o Mestre. E ninguém poderá querer ser melhor do que o Mestre sem segui-Lo, sem sofrer como Ele sofreu, porque o discípulo precisa sofrer para purificar-se, tendo em vista que da Cruz de cada dia e do sofrimento da purificação se eleva o crescimento da nossa fé e da nossa ação evangelizadora.

Reflexão do Evangelho com Dom Orani Cardeal Tempesta

Meus amigos,

Uma das lições do Evangelho de hoje(cf. Mt 16,21-27) é provocadora: Jesus caminha consciente para a morte. Jesus na leitura de Mateus prefigura o teatro da sua condenação: o sinédrio com os seus membros: anciãos, doutores da lei e sumos sacerdotes.

A segunda lição da leitura central de hoje é Jesus chamar a Pedro de Satanás. Aquele que está diante do tribunal acusa, ou seja, o adversário. Em linguagem mais coloquial é aquele que se cruza no nosso caminho, nos causa dificuldade ou nos impede de agir. Satanás é aquele que se opõe aos planos de Deus. É nesse sentido que Jesus chama Pedro de satanás. De qualquer maneira, há semelhança entre Pedro e o tentador no início da vida pública de Jesus. Lá Satanás quis desviá-lo de sua missão e levá-lo para o caminho da vaidade humana. Agora, sem maldade, Pedro, está pensando em dissuadir Jesus de caminhar até Jerusalém, ao encontro da Paixão, Morte e Ressurreição. Por isso, Jesus o repele com a mesma veemência com que repeliu o demônio.

Uma terceira lição que podemos tirar do Evangelho é que podemos ser satanás para nós mesmos. Ao chamar Pedro de “pedra de tropeço” e de “pedra de escândalo” Jesus quer alertar que na caminhada de cristãos, de membros ativos da Igreja fundada sobre a rocha que é Pedro, muitos caminhos obscuros serão colocados na direção dos crentes. Aí nascem as tentações de nos desviar do bem, vários pretextos para nos afastar dos caminhos de Deus e da sua vontade salvadora. O ponto central do Evangelho de hoje é esse: Ser satanás para nós mesmos é ir contra o projeto do Senhor. Seguir a Jesus Cristo é renunciar a tudo e segui-Lo, se preciso for até morrendo no martírio para que esse seguimento se efetive e brilhe a luz admirável da nova vida em Cristo Senhor.

Meus irmãos,

A parte segunda do Evangelho – vv. 24-27 – se dirige aos discípulos de todos os tempos. Não apenas a estrada de Jesus é tortuosa e difícil, mas a todos aqueles e aquelas que querem Segui-Lo e testemunhá-Lo. Crer em Cristo é muito abrangente, significa também sofrer por Ele. Há um sofrimento do qual nenhum discípulo pode escapar e para o qual nenhuma medicina humana serve: a renúncia aos próprios interesses. Toda renúncia tem como conseqüência à dor, mas nem toda renúncia é perda, é ganho.

A primeira tentação que o demônio tentou apresentar a Jesus foi o ter e o poder, o desejo do aplauso, o desejo do poder, sem limites. Esse é o caminho do mundo. O caminho de Deus, entretanto, é outro é o da solidariedade, da partilha, do acolhimento, da renúncia, enfim, da caridade e do AMOR.

Caros irmãos,

Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.

O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a autossuficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.

O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.

Amigos,

Na segunda leitura(cf. Rm 12,1-2) encontramos uma iluminação proveniente do Evangelho de hoje: oferecer-se como hóstia viva a Deus, então, não é desprezar-se, mas o culto razoável, o cultivo coerente e conseqüente da vontade de Deus: sermos plenamente seus, seu povo, seus filhos, seus profetas, não conformando-nos a este mundo, mas procurando conformidade com a vontade de Deus. Uma bela exortação para que seja a nossa meta na semana que se inicia: A palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de injúria, porque Jesus foi morto por causa desse sonho! E a quem o quer seguir, ele diz: “renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!(cf. Mt 16, 24)”.

Como é que o batizado deve responder aos dons de Deus? Com atos rituais solenes e formais, com orações ou gestos tradicionais repetidos de forma mecânica, com a oferta de uma “esmola” para os cofres da Igreja, com uma peregrinação a um santuário? Paulo responde: o culto que Deus quer é a nossa vida, vivida no amor, no serviço, na doação, na entrega a Deus e aos irmãos. Respondemos ao amor de Deus entregando-nos nas suas mãos, tentando perceber as suas propostas, vivendo na fidelidade aos seus projetos.

“Não vos conformeis com este mundo” – pede Paulo(cf. Rm 12,2). O cristão é alguém que não pactua com um mundo que se constrói à margem ou contra os valores de Deus. O cristão não pode pactuar com a violência como meio para resolver os problemas, nem com a lógica materialista do sucesso a qualquer custo, nem com as leis do neoliberalismo que deixam atrás uma multidão de vencidos e de sofredores, nem com as exigências de uma globalização que favorece alguns privilegiados mas aumenta as bolsas de miséria e de exclusão, nem com a forma de organização de uma sociedade que condena à solidão os velhos e os doentes.

“Transformai-vos pela renovação espiritual da vossa mente” – provoca São Paulo(cf. Rm 12,2). Enquanto o mundo gira a Cruz permanece de pé!

Com a Cruz permanecendo em pé no mundo queremos rezar por todos os nossos irmãos leigos e leigos que fazem acontecer a Igreja na ponta das redes de comunidade. Entre os leigos e leigos queremos, de maneira especial, agradecer a Deus o trabalho silencioso e persistente de nossos catequistas, que são os principais colaboradores dos párocos, fazendo a presença amorosa de formadores de nossas novas gerações. Que Deus abençoe sempre os que dilatam o Seu Evangelho e que nunca falte a assistência da Trindade Santíssima. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal