Homilia do 11º Domingo Comum

Meus queridos Irmãos,

O amor de Deus supera os nossos pecados. Mas isso somente acontecerá se a nossa fé for a mesma de Jesus Cristo que nos leva a agir como ele agiu. Perdão e amor andam de mãos dadas.

A Primeira Leitura de hoje(cf. 2Sm 12,7-10.13) nos apresenta a contrição de Davi. O profeta Natã é o porta-voz, “boca” de Deus, voz da consciência para o rei Davi, quando denuncia seu homicídio e adultério. Davi desprezou o mandamento de Deus, mas aceita a denúncia do profeta, reconhece seu crime e entrega-se ao juízo de Deus. Por isso, Deus mostra compaixão.

A reflexão fundamental da primeira leitura é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Nós cristãos, filhos de um Deus que não suportam o egoísmo e a injustiça não podemos pactuar com esta situação. A atitude de Davi, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de Davi nos convida a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas ações erradas. A atitude de Davi nos convida, sobretudo, neste ano jubilar, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o “pecado” desapareça das nossas vidas.

Caros irmãos,

A Segunda Leitura(cf. Gl 2,16.19-21) nos apresenta se as obras da Lei justificam, Cristo morreu em vão. Paulo tem que polemizar com a tendência de “judaizar” os cristãos da Galácia, que com o judaísmo nada tem a ver. Vai ao essencial: “O que torna o homem justo diante de Deus?” Os judaizantes acham que é observar somente a Lei. Claro que a moralidade tem seu valor; Deus a deseja. Mas, de per si, ela não pode “forçar” Deus, pois sempre lhe ficamos devendo infinitamente. O que nos torna justos é a graça de Deus; sem ela, as obras não servem para nada. E esta graça manifesta-se no maior gesto de amor e perdão pensável: a vida de Cristo dada por nós. Devemos crer nesse amor.

Nosso Senhor Jesus Cristo com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte. Quanto a si, São Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo.

Hoje mais do que nunca é necessário reafirmar que a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas.

Caros fiéis,

Ao refletirmos sobre o Evangelho de hoje(cf. Lc 7,36-8,3 ou 7,36-50), vem uma pergunte a nossa mente: o que foi primeiro, o amor ou o perdão? Jesus nos diz que: “Tem-lhe sido perdoados seus muitos pecados, porque muito amou”, e: “Tem sido perdoados teus pecados… tua fé te salvou”(cf. Lc 7,47-50). Será que os pecados foram perdoados porque mostrou muito amor, ou o contrário? A narração não permite distinguir claramente, mas também não importa, pois o mistério do perdão é que se trata de um encontro entre o homem contrito e Deus que deseja reconciliação. A contrição é o amor que busca perdão e o perdão é a resposta de Deus a este amor. A contrição é o amor do pecador, que se encontra com o amor de Deus, que é perdão, reconciliação, misericórdia.

Irmãos e Irmãs,

Jesus era acusado de comer com os pecadores. Hoje encontramos Jesus na casa de um fariseu, e, pelo jeito, não muito à vontade, porque o fariseu, ainda que o tivesse convidado, o tratara sem muita cortesia. Embora visse em Jesus um possível profeta o convidara pela fama que tinha, o tratara rudemente, talvez para não se macular legalmente, caso Jesus não se comportasse como observante das leis judaicas, e não ser criticado pelos seus colegas fariseus.

Como era o costume de receber uma visita no tempo de Jesus? O anfitrião recebia o seu convidado na porta. Ali colocava as mãos nos ombros do visitante e lhe beijava a face. Depois chamava um servo para lavar com água fria os pés da visita e lhe oferecia uma bacia com água limpa e fresca para banhar o rosto e as mãos, antes de seguirem para a mesa. E, mais, o dono da casa deveria oferecer umas gotas de bálsamo ao recém-chegado do pó da estrada e do sol causticante. Nada disse o fariseu fez para Jesus.

Era contra os costumes de então uma prostituta presenciar o banquete, ainda mais na casa de um fariseu. Então significa que o fariseu já conhecia a prostituta. Quem sabe o véu, que costumeiramente cobria o rosto e a cabeça das mulheres, tenha disfarçado a prostituta. Jesus veio estar com o fariseu, veio tomar refeição em sua casa. Para o fariseu, o Cristo era um profeta. Mas o fariseu ficou na exterioridade, num formalismo que não envolvia a consciência, mudança de vida, e a conseqüente aceitação de Jesus como Mestre e Senhor. Em vez de olhar seu próprio interior e retirar a trave que lhe cegava os olhos, pensou mal de Jesus que se deixava tocar por uma pecadora.

A mulher que já deveria ter visto Jesus antes, escutando o seu ensinamento e o seu Evangelho fez o firme propósito de abandonar a devassidão e o pecado. Sabendo que Jesus estava na casa do fariseu foi ao seu encontro. Levando o perfume a prostituta foi com uma missão determinada: demonstrar gratidão a Jesus reconhecê-lo em público como profeta e declarar-se arrependida do seu passado e de seus pecados.

Meus queridos Irmãos,

O fariseu procurou a vaidade da companhia de um homem famoso, profeta de Deus, que poderia vir a ser uma pessoa importante. A mulher humilhou-se, porque sabia quais seriam os pensamentos e olhares dos convidados. A mulher, mais do que isso enfrentou o desprezo, tirando o véu, que lhe cobria a cabeça, para que a cabeleira servisse de toalha para os pés de Jesus.

O fariseu julgava-se justo e sinceramente não era. A mulher, por sua parte, reconhecia-se pecadora e procurava o perdão de seus pecados.

O fariseu oferecia um jantar à vista de todos, para que todos comentassem na vila. A mulher derramava lágrimas de arrependimentos pelos seus muitos pecados.

O fariseu se chamava Simão, e, portanto, tinha honra. A mulher era anônima, sendo apenas conhecida de profissão duvidosa, ou seja, prostituta, considerada indigna pelos homens, exceto por Jesus que a acolheu e perdoou os seus pecados.

Jesus fez a opção pela mulher pecada no momento em que disse que a mulher muito amara, enquanto o amor do fariseu era escasso. Não que o fariseu devesse cometer muitos pecados para receber um grosso perdão como a mulher. Mas porque o fariseu não soube reconhecer seu pecado de orgulho e prepotência diante de Jesus, apesar de sabê-lo profeta.

O cenário do ocorrido era uma refeição: para receber o perdão era necessário o arrependimento dos pecados, a confissão dos pecados e uma entrega confiante aos pés do Senhor. Não importava a quantidade e o peso dos pecados, o importante é o gesto e a qualidade do amor, que é caridade e arrependimento.

Irmãos e Irmãs,

Jesus olha para a mulher quando fala com o fariseu Simão para que o fariseu Simão dessa atenção à mulher, com o olhar de Jesus para a mulher, que era um olhar de perdão, de compreensão, de ternura e de amor. O fariseu, ao contrário, olhava para a mulher com julgamento e condenação como a maioria das pessoas que fazem retratos falados dos outros, voluntariamente.

Jesus olha para a mulher e a contempla arrependida. Já o fariseu vê uma mulher airada.

O fariseu, ao ver a mulher tocar em Jesus, o vê como pecador. Jesus veio nos ensinar que Deus é pai de todos, faz nascer o sol para bons e maus e chover sobre justos e injustos. Deus é o contrário do pecado, mas o pecador é sua imagem e semelhança. Mais uma vez Jesus afirmara que viera ao mundo com a missão de curar os pecadores para que nenhum deles se perca. O fariseu representa o modo de pensar pelos homens que não se apaixonam pela pedagogia de Jesus que é o perdão sempre e o amor incondicional, sem limites.

Caros irmãos,

A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente corretos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de autossuficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais? Tenhamos convicção de que a lei maior é a caridade para vencer a força do mal, do pecado que muitas vezes nos escraviza. A palavra fundamental na liturgia de hoje é a experiência da misericórdia infinita de Deus em que todos os cristãos batizados, sem exceção, ao deixar de lado a lei opressora, aquela lei para que oprime e que reafirma o primado da arrogância, deve dar, ao contrário, o testemunho da acolhida e do perdão, sem limites.

Queridos irmãos,

A liturgia deste domingo nos ensina a olhar para o sacramento da penitência. Todos somos convidados a buscar o confessionário com mais frequência e não somente por ocasião da Páscoa do Ressuscitado.

O sacramento da reconciliação é o lugar em que os católicos encontra o amor de Deus que perdoa e renova; No sacramento da confissão o fiel volta a ser filho de Deus e irmão dos homens e mulheres. Aproximar-se, com docilidade e abertura, do sacramento da confissão é reconhecer a radical insuficiência para salvar de si mesmo a própria vida, é abrir-se para acolher o amor eficaz de Deus, é empenhar-se por levar o mundo a novidade do amor.

Meus queridos Irmãos,

A graça do perdão desperta a gratidão. A gratidão, a retribuição. A vida crista consiste em retribuir o amor de Deus, que se manifesta no perdão em Cristo Jesus, com amor. Amor que se manifesta na paz, na alegria e no doce e gratuito serviço aos irmãos, especialmente aos mais excluídos. Amém!

Homilia: Padre Wagner Augusto Portugal