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Lembrando Batismo do Senhor.

No Batismo de Jesus, Deus Pai se manifestou, afirmando: “tu és meu filho, muito amado; a ti dedico meu afeto” (Lc3,22).

Batismo do Senhor: sentido, graça e missão do cristão
Material para catequese
Material para catequese

À primeira vista, a pergunta parece simples: Jesus precisava ser batizado? Não. Certamente não. Ele é o Filho de Deus, o Salvador da humanidade. Além disso, o próprio João Batista já havia compreendido essa verdade antes mesmo do encontro às margens do Jordão. Portanto, se Jesus não precisava do Batismo do Senhor, por que, então, Ele se deixou batizar?

Antes de tudo, Jesus se deixou batizar para manifestar sua profunda solidariedade conosco. Ao entrar nas águas, Ele se une à humanidade que veio salvar. Não o faz por necessidade pessoal, mas por amor. Assim, Ele assume a condição humana até o fim, mostrando que a salvação não acontece à distância, mas na proximidade, no compromisso e na entrega.

Batismo do Senhor e o início da missão de Cristo

Além disso, o Batismo do Senhor marca, de modo visível e profético, o início da missão pública de Jesus. A partir daquele momento, Ele se apresenta ao mundo não apenas como alguém enviado por Deus, mas como o Filho amado que caminha com o povo. Portanto, o batismo torna-se um sinal claro de que sua missão começa no meio da humanidade, não fora dela.

Ao mesmo tempo, Jesus deseja ensinar algo essencial sobre o nosso próprio batismo. Ele revela que, ao sermos batizados, somos consagrados a Deus e recebemos uma missão. Não se trata apenas de um rito, mas de um chamado. Assim, o batismo nos insere numa nova vida, marcada pelo compromisso com o Evangelho.

A manifestação da Trindade

Nesse contexto, acontece um momento profundamente epifânico, ou seja, uma manifestação clara de Deus. No Batismo do Senhor, a Trindade se revela de forma explícita. O Pai se manifesta, proclamando: “Este é o meu Filho amado”. O Espírito Santo, por sua vez, desce sobre Jesus, confirmando sua identidade e endossando sua missão. Portanto, não se trata de um evento isolado, mas de uma revelação central da fé cristã.

É importante, contudo, perceber um detalhe fundamental: Jesus estava em oração. Nada acontece por acaso. Nosso Deus é comunhão, é participação, é Trino. Assim, o Cristo recém-batizado nos ensina, de forma silenciosa e profunda, a importância da oração em nossa vida. Portanto, o Batismo do Senhor não revela apenas quem Jesus é, mas também como devemos viver nossa relação com Deus.

Batismo do Senhor e o sentido do nosso batismo hoje

A partir do Batismo do Senhor, somos convidados a aprofundar o significado do nosso próprio batismo. No entanto, infelizmente, para muitos hoje, o batismo parece ter se tornado apenas um evento social. Assim, muitos passam a enxergar o batismo apenas como um momento de confraternização, festa, troca de presentes, escolha de padrinhos e registros fotográficos. Entretanto, essa compreensão é superficial e não corresponde à verdade do sacramento.

Antes de tudo, o batismo é dom. É graça de Deus. Portanto, não é algo que se compra, se merece ou se reduz a uma celebração externa. Pelo contrário, trata-se de um verdadeiro nascimento do alto, como nos recorda o Evangelho: “Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (cf. Jo 3,3). Assim, o batismo não é apenas um começo simbólico, mas uma transformação real da vida.

Além disso, o batismo é graça e missão ao mesmo tempo. Ao sermos batizados, passamos a nos identificar com Cristo. Tornamo-nos filhos de Deus, membros da Igreja e irmãos em Cristo. Portanto, o batismo nos insere numa nova identidade e nos chama a viver segundo o Evangelho. Contudo, é preciso perguntar com sinceridade: isso é realmente percebido hoje? Isso é assumido na prática da fé?

Identidade cristã

À luz do Batismo do Senhor, compreendemos que não podemos viver o batismo apenas como um rito do passado. Pelo contrário, ele é um compromisso permanente. Assim, cada batizado testemunha a fé no dia a dia, na família, no trabalho e na sociedade. Portanto, o batismo deve ser também um momento privilegiado de evangelização, tanto para quem recebe o sacramento quanto para toda a comunidade.

Entretanto, quando reduzem o batismo a uma formalidade, ele perde sua força transformadora. Dessa forma, muitos passam a viver como se nunca tivessem recebido o batismo. A fé deixa de orientar as escolhas, e o Evangelho deixa de ser referência concreta. Assim, torna-se necessário retomar o verdadeiro sentido do batismo, não apenas na teoria, mas na vivência cotidiana.

Além disso, o Batismo do Senhor nos lembra que devemos acolher e cultivar a graça que recebemos. Embora a salvação seja dom gratuito, ela exige resposta. Portanto, não basta receber o sacramento; é preciso viver como cristão. Essa vivência passa pela oração, pela participação na comunidade e pelo compromisso com a justiça e a caridade.

Quando compreendemos o batismo apenas como um evento social, perdemos sua essência. Porém, quando o reconhecemos como dom e missão, ele se torna fonte de vida nova. Assim, cada batizado renova diariamente o “sim” dado a Deus naquele momento inicial da fé.

Batismo do Senhor, batismo das crianças e a vivência da fé

Ao refletirmos sobre o Batismo do Senhor, surge também uma questão pastoral recorrente: o batismo das crianças. Muitos defendem que apenas quem possui fé consciente pode receber o batismo. De fato, a Escritura afirma que “quem crer e for batizado será salvo”. Contudo, também recorda que “quem não for batizado será condenado” (cf. Mc 16,15-16). Diante disso, surge a pergunta: o que acontece com as crianças que morrem sem batismo?

Antes de tudo, é preciso compreender que as crianças não possuem ainda o uso da razão e, portanto, não podem professar a fé de forma consciente. No entanto, isso não as exclui da graça de Deus. Pelo contrário, a salvação é dom gratuito, oferecido por Deus a todos, adultos e crianças. Portanto, não se trata de um problema teológico propriamente dito, mas de uma questão pastoral, exegética e hermenêutica.

Além disso, o Batismo do Senhor nos ajuda a compreender que a graça não é mérito humano. Ninguém merece o batismo, nem mesmo os adultos. Assim, se a graça é dom e iniciativa divina, não há motivo para negá-la às crianças. Deus é providente, misericordioso e sempre amoroso. Ele deseja a salvação de todos, sem exceção.

Batismo das crianças e responsabilidade dos pais

Nesse sentido, o verdadeiro desafio não está no batismo das crianças, mas na responsabilidade dos pais. Infelizmente, muitos não assumem sua missão de educadores da fé. Como consequência, vemos tantos filhos perdidos nas drogas, nos vícios, na violência e na revolta. Portanto, o problema não é o sacramento, mas a ausência de acompanhamento e testemunho cristão.

Assim, os pais são chamados a ser os primeiros catequistas de seus filhos, verdadeiros mistagogos e discípulos de Cristo. O batismo, então, não encerra um processo, mas o inicia. Por isso, mais do que discutir teorias, é necessário viver o Evangelho com coerência. Menos debates estéreis e mais testemunho concreto de fé.

Em conclusão, é urgente voltar a Cristo e ao Evangelho. Ser Igreja não significa ser fanático, mas viver a fé no cotidiano. A graça é dom, e a salvação também; por isso, colaboramos com ela por meio da fé, da oração e do testemunho. Não basta ter religião; é preciso vivê-la com fé, amor e compromisso com a justiça social e as virtudes cristãs.

Além disso, é necessário reconhecer a família como dom de Deus e patrimônio da humanidade, como recordou Bento XVI. No Batismo do Senhor, o Pai e o Espírito Santo se manifestaram claramente. Hoje, os céus não precisam se abrir novamente, mas o Espírito Santo deve continuar descendo sobre os batizados, confirmando-os na fé e no testemunho cristão.

+Carmo João Rhoden, SCJ

Bispo Emérito de Taubaté-SP

Presidente da Pró Saúde.