Entregando os pontos

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Entregando os pontos

Em tempos de crise, é comum ouvir desabafos e comentários genéricos de que qualquer esforço para melhor é vão. As pessoas se portam como que alheia aos fatos que as circundam e se entregam a um ceticismo generalizado, como a confessar que nada mais valha a pena.

Dão por que encerrado um ciclo de esforços inúteis, sobre o qual pouco resta a não ser aceitar a derrota, entregar os pontos. Fosse uma competição esportiva, só lhes restaria parabenizar os adversários ou amaldiçoar o juiz da contenda. A inércia e o conformismo tomam conta. Reverter os fatos só mesmo por milagre.

Essa filosofia da derrota evidente é a pior das derrotas. Toma conta e corrói qualquer reação que se mostre capaz de reverter fatos concretos, quando tudo contribui para o derrotismo puro e simples.

Muitos esperam ou até apelam por um golpe de misericórdia, incapazes de enxergar numa simples derrota a oportunidade de recomeço; esquecem-se da extraordinária capacidade humana de se soerguer sempre, mesmo à custa de uma evidente batalha perdida. Um jogo nunca é igual ao outro; uma batalha não define a guerra; uma doença nem sempre leva à morte e nossas disputas serão intermináveis enquanto vivos estivermos.

As disputas cotidianas é que alimentam e reforçam nossa coragem ou ânimo na caminhada. Acontece que nem toda aparente vitória possui os méritos da justiça e os louros de uma disputa equilibrada, perfeita. Há por ai muitos trapaceiros no jogo da vida. Em especial aqueles cuja ambição extrapola direitos e deveres, contrariam as regras do jogo. “O ambicioso provoca disputa, mas o que confia no Senhor prosperará” (Prov. 28, 25).

Na verdade, a guerra pela sobrevivência se mune de armas da desigualdade, do oportunismo, da ironia quando seu intuito primeiro é o de subjugar os ingênuos, os puros de coração e de alma, para os quais a malícia e maledicência não são recursos dos quais possam fazer uso.

Dai a gritante disparidade de forças entre justos e oportunistas, aqueles que temem a Deus e respeitam seus mandamentos e aqueles que temem as ameaças contra seu deus de poder e glórias terrenas. Essa é a diferença das armas que usamos nessa luta do bem contra o mal. O aparente ponto fraco do povo iludido e massacrado pelo braço de ferro dos que o governam, trapaceiam, iludem, na verdade, é sua fortaleza.

Sobra-nos o acreditar, confiar nessa prosperidade misteriosa que só a fé pode exibir e nos fazer compreender em sua plenitude. A ação desmedida de poder, de riquezas, de ambições meramente transitórias nunca será vitoriosa.

Ela, sim, há de entregar os pontos numa fragorosa derrota contra a lógica de suas nauseantes e fétidas forças de sustentação. Nenhum tribunal que faça jus às suas sentenças é maior ou melhor que a justiça imparcial e soberana de Deus. Essa há de prevalecer. Contra o Juiz supremo não cabem imprecações, maldições. Nem adiamento de sentença. Nem subterfúgios da defesa. Nem protelações burocráticas, apelos a outra instância. Nada disso. “É a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que crêem”…(Rom 3,22) que prevalecerá sobre os facciosos tribunais de nossas apelações cotidianas. Quando esta se der, não há o que temer. Para os justos será a reabilitação sonhada e esperada neste injusto campo de batalhas em que nos metemos.

A taça do mundo voltará para nossas mãos. A taça, a verdadeira e única, aquele cálice dourado, reluzente, que nos roubaram um dia e ainda nos roubam quando nossa esperança é derretida no fogo das paixões e ambições humanas.

A taça do vinho novo, da nova aliança impregnada pelo sangue de um derrotado aparente; a taça do sangue de Cristo! Então será chegada nossa hora de entregar os pontos, aqueles que somamos positivamente com nossa perseverança e fé, os tentos de nossas vitórias terrenas sobre a ambição sem lastro. Será chegada nossa hora de entregarmos esses pontos a Deus.