Eis o meu Filho amado

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Com a Festa do Batismo do Senhor, celebrada no domingo após a Epifania, encerra-se o ciclo das Festas da Manifestação do Senhor – o ciclo de Natal. Na segunda-feira após esta festa, iniciaremos a Primeira Semana do Tempo Comum, tempo de contemplarmos a totalidade do mistério de Cristo nas realidades do dia a dia. Neste tempo aqui no Rio de Janeiro vivemos a trezena de São Sebastião, neste ano de modo muito diferente.

Logo após a vivência dos dias do tempo de Natal e do Início do Ano Novo, onde tivemos a oportunidade de preencher nossas vidas de esperança e fomos fortalecidos pela notícia da presença de Deus que nos ama em nosso meio, somos convidados pelo Senhor a ingressar pela porta da fé e tornar-se comunicador de seu Reino.

Na festa do Batismo do Senhor, comemoramos a manifestação de Jesus como o Filho Amado, cheio do Espírito Santo, que veio para salvar a todos, e o início de sua vida pública. Isso acontece logo após o Batismo de Jesus por São João Batista nas águas do rio Jordão. Sem ter mancha alguma que purificar, Jesus quis submeter-se a esse rito, tal como se submetera às demais observâncias legais que também não O obrigavam. João chamava as pessoas à penitência para preparar a vinda do Messias. Ele foi o precursor.

O Senhor desejou ser batizado, diz Santo Agostinho, “para proclamar com a sua humildade o que para nós era uma necessidade”. Com o batismo de Jesus, ficou preparado o Batismo cristão, diretamente instituído por Jesus Cristo e tarefa dada pelo Senhor no dia da Ascensão: Todo poder me foi dado no Céu e na Terra, dirá o Senhor; ide, pois, ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 18-19).

Por isso, junto com a bela manifestação da Trindade e da Missão de Jesus, esta festa nos faz refletir sobre a nossa vida batismal. A partir do Batismo, o cristão passa a fazer parte de um povo, e a Igreja apresenta-se como a verdadeira família dos filhos de Deus. O Batismo é a porta por onde se entra na Igreja. Em virtude do Batismo, somos chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Como diz o Documento de Aparecida nº 209: “Os fiéis leigos são os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo batismo que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo a sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. São homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja”.

Às margens do Jordão, Jesus foi ungido com o Espírito Santo como o Messias, o Cristo, Aquele que as Escrituras prometiam e Israel esperava. Agora, Ele irá começar publicamente a missão de anunciar e inaugurar o Reino de Deus. Esta missão ele começou desde que Se fez homem por nós; agora, no entanto, vai manifestar-Se publicamente a Israel e a toda a humanidade. É na força do Espírito Santo que Ele pregará, fará seus milagres, expulsará Satanás e inaugurará o Reino; é na força do Espírito que Ele viverá uma vida de total e amorosa obediência ao Pai e doação aos irmãos até a morte, e morte de cruz.

Podemos fazer um paralelo de Isaías 42, do Servo sofredor com Jesus. Jesus, que é o Filho, é também o Servo sofredor anunciado por Isaías. Hoje, o Pai revela a Jesus qual o modo, qual o caminho que Ele deve seguir para ser o Messias como Deus quer: na pobreza, na humildade, no despojamento, no serviço! É assim que o Reino de Deus será anunciado no mundo. Jesus deverá ser manso: “Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas”. Deve ser cheio de misericórdia para com os pecadores, os fracos, os pobres, os sem esperança: “Não quebra a cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega”. Ele irá sofrer, será tentado ao desânimo, mas colocará no seu Deus e Pai toda a sua esperança, toda a sua confiança: “Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na Terra”. O Senhor Deus estará sempre com Ele e Ele veio não somente para Israel, mas para todas as nações da Terra: “Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como aliança do povo, luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.

Ao ser batizado no Jordão, Jesus é ungido com o Espírito Santo para a missão. Esta unção será plena na ressurreição, quando o Pai derramará sobre Ele o Espírito como vida da sua vida. Então Ele, pleno do Espírito Santo que O ressuscitou, derramará este Espírito, que será também seu Espírito, sobre nós, dando-nos uma nova vida! Os cristãos são batizados na água e no Espírito (cf. Jo 3,5; 7,37-39). Ao sermos batizados, recebemos o Espírito Santo de Jesus e, por isso, somos participantes de Sua missão de viver, testemunhar e anunciar o Reino de Deus, a Vida eterna, a Vida no amor a Deus e aos irmãos, que Jesus veio anunciar ao Se fazer homem igual a nós! O testemunho é dado na simplicidade, na pobreza e na humildade do dia a dia!

A Festa do Batismo do Senhor nos faz recordar as maravilhas do Dom de Deus e é também um chamado à missão, um chamado a sermos mensageiros e servidores da Esperança. Que o Senhor, pela ação do seu Espírito em nós, nos fortaleça, nos santifique e nos dê a cada dia mais um coração de servos.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ