Deus lhe pague

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ano novo

Quando muitas recordações se acumulam no decorrer de nossas existências, já é longa a estrada percorrida. Ano após ano, a experiência do passado parece-nos um baú de reminiscências, boas ou ruins, que se abre em nossas mentes com o peso da saudade ou a alegria de um momento bem vivido. Lembranças, quem não as têm?

Ano novo sempre nos proporciona a magia dessas recordações. Quando criança, juntava-me ao grupo de crianças alegres e esperançosas, para a coleta do simbólico “ano bom”, que poderia ser um doce, uma bala ou mirradas moedas. Contentávamos com pouco. Meu pai, dono de uma pequena fábrica de refrigerantes, abria as portas de sua indústria e distribuía guaraná às levas de crianças que se enfileiravam ordeiramente à espera de sua vez. Um pipoqueiro abarrotava seu carrinho com vistosas pipocas coloridas e as distribuía feliz da vida. Assim também agia um sorveteiro, cujos picolés de groselha, anis e abacaxi eram a festa da garotada. Depois, com sagrado respeito e sem excessos, retribuíamos aos adultos desejando prosperidade naquele ano e agradecendo com um “Deus lhe pague” sem muita percepção do que dizíamos.

Tempos felizes, aqueles! Sem traçar qualquer paralelo, olho para as crianças que hoje repetem essa tradição. Os sonhos, a inocência, o desejo de seus corações ingênuos continuam os mesmos. “Feliz Ano Novo, tio”! Quase não se percebe o desejo final: “Deus lhe pague”! Essa constatação é o que mais me preocupa e assusta. Será que nossas crianças perderam o referencial divino, a mística da gratidão?

Creio que não. A infância pura e despretensiosa é a mais inviolável guardiã do sagrado, do misterioso dom da vida que procede de Deus. Não a demonstram verbalmente, não por propósito, mas por falta de exemplos da parte dos adultos. A sociedade já não demonstra com clareza esse respeito místico, esse desejo simples e belo de gratidão Àquele que nos possibilitou vencer mais um ano. Se o desejo de hoje é apenas de prosperidade material, com esforço e mérito próprios, é fatal que se exclua Deus dessa história. A cada ano, o que vemos acontecer prepotentemente em nossa sociedade é o distanciamento humano da providência divina.

O pensamento típico do materialismo em excesso trilha uma diretriz perigosa: “Se eu não lutar, ninguém lutará por mim; se não o fizer, ninguém o fará; se não correr atrás, outros chegarão primeiro”. E assim por diante… Nem aquela máxima do “cada um pra si e Deus pra todos” vale mais. Por que então incluir Deus no mérito de nossas conquistas, quando o que conta é o mérito pessoal?

Lembro-me de fabula bem a propósito. Um pobre viajante atravessava um deserto. Em meio à travessia, encontrou-se com a caravana de um rico príncipe, dono de vasta fortuna, que naquela viajem se encontrava desprovido de alimentos. O príncipe, humildemente, pediu ao viajante um pedaço do seu pão. Mais por piedade, do que caridade, o pobre tirou pequena lasca do seu mirrado alimento e a estendeu ao príncipe.

Mais adiante, à sombra de um oásis, o viajante parou para se alimentar. Ao retirar o pão de sua sacola, com ele encontrou uma pequena pedra de ouro. Ouro puro! Percebeu então que aquela jóia tinha o exato tamanho da lasca de pão dada ao príncipe. Então se lamentou por não lhe ter oferecido o pão inteiro.

Eis nossa história. Ano vai, ano vem e muitos de nós, viajantes nessa terra, não nos damos conta de que Deus cruza nosso caminho a todo instante. Não só nos acompanha nessa travessia, como também nos pede um gesto de gratidão, um sinal de confiança em sua providência e amor. Ele que nos dá todas as riquezas da vida, que não nos deixa faltar o essencial e nos colocou nessa terra para merecermos a paga de sua generosidade. Porque “uma geração passa, outra vem; mas a terra subsiste” (Ecle 1,4). E Deus continua nos abençoando em proporção de nossos méritos e boas ações.

WAGNER PEDRO MENEZES

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