Contemplemos o Calvário

Contemplemos o Calvário

Numa sexta-feira do ano 30, os romanos crucificaram, a pedido das autoridades religiosas judaicas, o pregador Jesus de Nazaré, em hebraico, Ieshu ben Ioseph. Jesus pregava a chegada do Reino de Deus, anunciado nas Escrituras de Israel; afirmava ter vindo de Deus, ser o Filho de Deus. Escolhera Doze discípulos, indicando claramente que, a partir dele, Israel, o povo das Doze tribos, deveria ser renovado e transformado. Afirmava que aqueles que nele acreditassem e o aceitassem como Messias e Salvador, que o amassem mais que à própria vida e se abrissem à sua mensagem sem nenhuma reserva, encontrariam a Luz verdadeira, a Vida verdadeira e venceriam, com ele e como ele, a própria morte: as mortes da vida e a Morte última.

Sexta-Feira de silêncio, de jejum, de oração, de abstinência de carne. Sexta-Feira escandalosa: como pode um Deus morto? Como pode a vida ser morta pela Morte? Como pode a Luz dissipar-se ante as trevas? Como pode o Pai se calar e permitir que o Justo fosse assassinado e derrotado? Onde está Deus? Se existe, por que não salvou o seu Filho amado?

De fato, a cruz, por si mesma, é um escândalo terrível! Por isso os antigos pagãos, zombando dos cristãos, representavam um asno crucificado – um leitor escreveu em um jornal que a doutrina da Igreja não passa de “asneiras”… Há dois mil anos dizem isso. Alguns zombam de nós, chamando-nos adoradores da cruz, curtição do homem embevecido com sua razão, com sua tecnologia, com seu conforto, com suas soluções “morais” práticas e fáceis, tanto quanto levianas e vulgares, com sua ilusão de ser senhor do bem e do mal, do certo e do errado, da vida e da morte.

Para os cristãos, no entanto, a cruz nos descortina, fundamentalmente, dois mistérios tremendos. Primeiro, o Mistério da Iniquidade, Mistério do Pecado do mundo, fruto da liberdade humana, que pode de tal modo fechar-se para Deus, levando o homem – cada indivíduo e a humanidade toda -, a tal soberba, a tal auto-suficiência, a ponto de matar Deus: “Não queremos que esse aí reine sobre nós! Não temos outro rei a não ser César!” (Jo 19,15). Isso mesmo: a cruz revela até onde o homem pode ir: ele pode matar Deus! E o está matando, continua a matá-lo, erradicando-o da cultura, da sociedade, dos meios de comunicação, das escolas, das famílias, dos corações. Basta que escutemos o brado prepotente e realista do ateu Nietzsche Deus morreu! Deus está morto! E nós é que o matamos! Tudo o que havia de mais sagrado e mais poderoso no mundo esvai-se em sangue sob o peso do nosso punhal. Não vos parece grande demais essa ação? No deveríamos nós mesmos nos tornar deuses? Nunca houve uma ação tão grande como essa!”

A cruz revela também um outro mistério: o Mistério da Piedade! Mistério de um Deus tão grande no seu amor, tão humilde no profundo respeito pela liberdade humana, que é capaz de se entregar à morte para salvar essa humanidade tola e prepotente: Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16-17). Na cruz revela-se até onde Deus está disposto a ir por nós: um Deus solidário, que entra na nossa vida, que assume as nossas contradições, que sofre conosco e morre conosco para nos fazer ressuscitar com ele, mantendo-nos sempre aberto o caminho da salvação.

Jesus está na cruz, humanamente aniquilado, um farrapo, um trapo de gente. Perdoa seus inimigos, entrega-se nas mãos do Pai com total confiança e morre. É sepultado. No terceiro dia, seus discípulos dizem que ele veio, vivo, ressuscitado, totalmente transfigurado, glorioso, divinizado na sua natureza humana, ao encontro dos seus. Tudo mudou para aqueles Doze, tudo mudou para os discípulos, tudo mudou para Paulo de Tarso, judeu culto, letrado, prudente, que diz ter sido encontrado por Jesus vivo, ressuscitado, vitorioso, no caminho de Damasco… Deste testemunho dos Apóstolos a Igreja vive há dois mil anos; por esse testemunho muitos deram a vida, muitos consagraram toda a existência. Os cristãos crêem com todas as forças e com razoáveis motivos: Jesus venceu a morte, ressuscitou, está no Pai e, na potência do seu Espírito Santo, estará presente à sua Igreja até o fim dos tempos.

“Cristo por nós se fez obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Isto é, tornado perfeito na obediência, consumando toda a sua existência humana de modo amoroso e total, entregando-se ao Pai por nós, ele se tornou causa da nossa salvação!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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