Construir sonhos e não miragens na era digital

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Construir sonhos e não miragens na era digital

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RESPONSAVEL: Anderson Roberto Fuzatto

No período anterior aos anos 2000, o mundo nos parecia menor; enxergávamos um pouco além de nossas fronteiras, e, por isso, não conseguíamos nos informar sobre tudo o que ocorria pelos continentes, ao menos simultaneamente. A partir dos anos 2000, a situação mudou radicalmente com a popularização da internet. Conforme ela foi se inovando com o surgimento de plataformas virtuais, como as famosas redes sociais, internautas deixaram de ser meros receptores para se tornarem produtores de conteúdo, além de “viajarem” por todo o planeta, utilizando como “meio de transporte” apenas uma rede de conexão.

Assim, com tal inovação, o mundo, que nos parecia menor, tornou-se maior, correto? Depende! Se pensarmos no sentido literal, esse aumento realmente aconteceu, mas não podemos negar que a explosão informacional virtual, ao invés de possibilitar mais opções de pesquisas para alguns, acarretou em um direcionamento de opiniões; ou seja, diante de tanta informação, certos internautas passaram a acessar apenas aquilo em que acreditam e, simplesmente, a ignorar outras realidades. Eles deixaram, portanto, de enxergar o planeta em sua totalidade. Tal recusa torna-se arma de influência poderosa daqueles que desejam impor suas ideias, as quais, muitas vezes, estão embasadas em exclusão social, ganância, individualismo, preconceito, violência, entre outras questões.

Esse paradoxo de relações é abordado com maestria na Carta Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco, sobre a fraternidade e a amizade social. No documento, o pontífice ressalta, entre vários outros aspectos, a deturpação do conceito de “abrir-se ao mundo”, que, segundo ele, está cada vez mais voltado para “uma abertura aos interesses estrangeiros ou à liberdade dos poderes econômicos para investir sem entraves nem complicações em todos os países” (12).

No entanto, tal conceito deveria voltar-se ao bem comum, a uma união pautada na valorização e na inclusão das diferenças, ao invés da anulação destas em prol de um modelo único que busca ocultar as identidades de povos e nações, na chamada “globalização da indiferença”, ressaltada pelo Papa Francisco. “Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária de existência” (12).

Logo, um meio tecnológico que permite o desenvolvimento do senso crítico pela infinidade de opções apresentadas é utilizado, muitas vezes, para exercer uma função oposta a essa, por meio da manipulação de ideias. Como nos diz o pontífice: “uma maneira eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos de integração é esvaziar-se de sentido ou manipular as grandes palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para utilizá-las como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação” (14).

Ações que envolvem a divisão e a polarização da sociedade, afinal, um povo dividido é um povo frágil. Caminhamos rumo a uma individualização doentia e perigosa, em que o diálogo morre, gradativamente, e que pensar diferente é considerado um crime, potencializado pelo poder de repercussão da internet. Por meio dela, atacam-se aqueles que pensam criticamente e que são considerados ameaça aos poderosos, destruindo-lhes a reputação das mais variadas formas possíveis, pois, com a falta de controle digital é fácil fazê-lo. Papa Francisco nos diz que “aquilo que ainda há pouco tempo uma pessoa não podia dizer sem correr o risco de perder o respeito de todos, hoje pode ser pronunciado com toda a grosseria, até por algumas autoridades políticas, e ficar impune” (45).

Além disso, “uma maneira fácil de dominar alguém é destruir-lhe a autoestima” (52). E o pontífice nos aponta que não existe alienação pior do que sentir-se sem raízes, sem história, sem origem. Buscam-se apagar as diferenças e descartar aqueles que já não são mais úteis socialmente, ressaltando a redução do ser humano a um mero objeto. É a chamada “cultura do descarte”, apontada pelo pontífice: “partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites” (18).

Tudo porque deixamos de enxergar o outro em sua essência, isolados em nossas bolhas digitais e numa falsa crença de que somos os únicos detentores do saber. Nós nos esquecemos de que “a verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade” (47). Trata-se, no entanto, de uma realidade que preze a totalidade e não apenas a minha versão de realidade ou o meu mundo, que se torna barreira de autodefesa de tal modo que “deixa de haver o mundo, para existir apenas o meu mundo” (27).

Que possamos, então, derrubar as fronteiras dos nossos meios para conhecermos as outras realidades por meio de um diálogo verdadeiro que nos permita desenvolver a escuta, a empatia, o acolhimento, enfim, que possamos sair de nós para enxergar o outro e aceitá-lo como ele é. Não significa concordar com todas as suas atitudes e opiniões, mas reconhecê-lo como ser humano dotado de direitos e deveres. Só assim poderemos caminhar rumo “à cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro” (215). Só assim, cresceremos enquanto humanidade.

 Não adianta sonharmos e planejarmos grandes ações se elas não incluírem o próximo e, por isso, encerro com a mensagem do Papa Francisco: “Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe, é juntos que se constroem os sonhos”. Que construamos, então, sonhos e não miragens.

Mariana Mascarenhas – Redação A12