A manifestação da glória de Jesus!

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A manifestação da glória de Jesus!

Depois das alegrias do tempo do Natal em que Deus se fez homem e veio habitar entre nós, pela sua Encarnação, celebramos a Sagrada Família, pedindo que nossas famílias seguissem o modelo da santidade familiar de Jesus, Maria e Jose. Iniciamos o ano com a celebração de Santa Maria, Mãe de Deus, e o dia mundial da paz em que o Romano Pontífice nos convida a vivermos a paz à partir da honestidade política. Celebramos a manifestação de Jesus, com a sua epifania, em que o ouro, o incenso e a mirra nos lembram que nas dimensões da realeza, da divindade e do sofrimento de Cristo nós caminharemos o ano da graça de 2019 com o Senhor, porque somente a Ele seja dada a honra, a glória e o poder. Neste segundo domingo de janeiro celebramos a Solenidade do Batismo do Senhor. O Papa Francisco, no ângelus, disse que a graça do Batismo recebido ela é enriquecida com a educação religiosa que os pais devem oferecer aos seus filhos antes da Catequese. Agora, ao iniciarmos, o tempo comum, deste ano dedicado ao estudo do Evangelho de São Lucas. No Tempo Comum, que varia de 33 a 34 semanas, contemplemos o mistério da vida do Senhor Jesus e somos transformados por sua glória que se manifesta em nós!

A liturgia de hoje apresenta a imagem do casamento como imagem que exprime de forma privilegiada a relação de amor que Deus (o marido) estabeleceu com o seu Povo (a esposa). A questão fundamental é, portanto, a revelação do amor de Deus.

A primeira leitura(cf. Is 62,1-5) define o amor de Deus como um amor inquebrável e eterno, que continuamente renova a relação e transforma a esposa, sejam quais forem as suas falhas passadas. Nesse amor nunca desmentido, reside a alegria de Deus. “Como um jovem que se casa com uma jovem, assim teu criador se casará contigo”(Is 62,5). Ciente desta promessa, esta “jovem” – tanto o povo eleito, quanto o mundo gentio – devia conservar seu vinho para o banquete nupcial, devia se preservar em esperança virginal. Mas não foi assim – nem para Israel e nem para os gentios. A humanidade devia ter permanecido “um jardim fechado, uma fonte lacrada”(Ct 4,12), aguardando a chegada do noivo, e não desperdiçando seus frutos. Mas judeus e pagãos não resistiram às seduções da idolatria, e ofereceram a outros “deuses” o vinho que pertencia ao seu legítimo marido. E o resultado? Quando Deus, na pessoa de seu Filho, veio para a festa, para o seu próprio casamento, o vinho que sobrava era pouco e não da melhor qualidade; além disso, contaminado por usos indevidos ao longo dos séculos. A tradição dos Santos Padres da Igreja ensina que não era em primeiro lugar para um casamento de dois camponeses que Jesus veio, mas para o seu próprio casamento, o do Filho de Deus com a casa de Israel. Por isso a mãe de Jesus está desolada. O próprio noivo terá que providenciar o vinho que estava a encardo da noiva: o vinho bom, o vinho que alegra o coração daqueles que o bebem um vinho que restaura a inocência à noiva desviada. Jesus entende tudo isso na sugestão dedicada de sua Mãe, Maria. Então é quando ele consente a fazer todo o necessário para plenamente realizar o plano primordial. Não é por nada que na cidade de Caná, nas bodas, constitui o “início dos seus sinais”, a primeira “manifestação de sua glória”.

O Evangelho(cf. Jo 2,1-11) apresenta, no contexto de um casamento (cenário da “aliança”), um “sinal” que aponta para o essencial do “programa” de Jesus: apresentar aos homens o Pai que os ama, e que com o seu amor os convoca para a alegria e a felicidade plenas. Quando Nossa Senhora apela para Jesus, seu amado filho, para que socorra os noivos de Caná, a fim de que a falta de vinho não transforme a festa de casamento em uma humilhação para os jovens noivos, Jesus resiste, insistindo que a sua hora ainda não chegou. Mesmo assim, a intervenção da Virgem Maria leva seu filho, Jesus, a revelar a finalidade de sua “hora”, a manifestar o que será o fruto desta hora. Deus criou os homens e as mulheres para participarem de um casamento, não como “estrangeiros e hóspedes”(Ef 2,19), mas como sua amada esposa. Quantas ocasiões os profetas empregavam esta imagem para descrever o plano benevolente que Deus tinha concebido para a humanidade desde a criação do mundo? O pedido da Virgem coloca-se no interior do desígnio divino de salvação. No primeiro sinal operado por Jesus os Padres da Igreja divisaram uma forte dimensão simbólica, acolhendo, na transformação da água em vinho, o anúncio da passagem da antiga à nova Aliança. Em Caná precisamente a água das jarras, destinada à purificação dos Judeus e ao cumprimento das prescrições legais (cf. Mc. 7, 1-15), torna-se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união definitiva entre Deus e a humanidade. O contexto de um banquete de núpcias, escolhido por Jesus para o Seu primeiro milagre, remete ao simbolismo matrimonial, freqüente no Antigo Testamento para indicar a Aliança entre Deus e o Seu povo e no Novo Testamento para significar a união de Cristo com a Igreja.

A segunda leitura(cf. 1Cor 12,4-11) fala dos “carismas” – dons, através dos quais continua a manifestar-se o amor de Deus. Como sinais do amor de Deus, eles destinam-se ao bem de todos; não podem servir para uso exclusivo de alguns, mas têm de ser postos ao serviço de todos com simplicidade. E enquanto aguardamos a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, precisamos dos dons do Espírito para a nossa transformação pessoal. A noiva precisa estar preparada para quando o esposo chegar. A noiva é a Igreja, a noiva somos nós, reunidos hoje. A noiva não é uma pessoa, a noiva é um corpo. A noiva somos nós que fomos trazidos da rua para a sala do banquete. Deus foi nos buscar nas encruzilhadas da vida e nos trouxe para a sala do banquete da festa do seu Filho que está para chegar. Somos a noiva aguardando o esposo. É essencial que na comunidade cristã se manifeste, apesar da diversidade de membros e de carismas, o amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

+ Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, MG